Opinião
Percursos singulares
Como já disse noutra altura, poucas coisas são mais bonitas que dar propósito e alento a quem dele precisa
Trabalho com jovens-adultos neurodivergentes, alguns com perturbação do desenvolvimento intelectual, que nem sempre encontram lugar no mundo do trabalho. Não por falta de vontade própria, mas porque parte do tecido empresarial não está sensível e/ou preparado para o perfil que apresentam.
O vazio após a escolaridade obrigatória é, para estes jovens, demasiadas vezes, uma realidade e na sorte de aparecer uma colocação profissional segue-se, normalmente, o azar da incompreensão.
Quem contrata não quer resolver problemas, procura antes quem lhos resolva. Se alguém vem dar trabalho, é melhor que não venha, pois num mercado virado para a produtividade imediata não há espaço para acolher quem exige mais adaptação, acompanhamento ou tempo.
Há leis que enquadram estas situações, mas na prática é sempre tudo muito difícil de operacionalizar, e mesmo que a lei se cumpra, a verdadeira integração só acontece se no interior das lideranças e equipas de trabalho bater um coração também ele especial.
No entanto, contrariando esta tendência, conheci há pouco tempo uma instituição da qual não posso deixar de falar – o Centro Social Paroquial de Regueira de Pontes.
Da sua equipa técnica faz parte a Dra. Sofia, cuja premissa é dar oportunidade a quem nunca a teve. Incluir, respeitar e aliviar a carga das famílias destes jovens é para si uma necessidade. A mim, pareceu-me mais uma vocação, na verdade!
Talvez não consigam sentir o que eu senti depois de me reunir com a Dra. Sofia, mas foi como encontrar um oásis no meio do deserto, pois após anos de luta por uma inclusão que tende a não passar do papel, eis que alguém aceita sem preconceito nem hesitação. Eis que alguém vê a pessoa em primeiro lugar e não as limitações que carrega.
Esta generosidade emocionou-me e emocionou os pais. Devolveu-lhes a esperança de um futuro melhor e fez valer a pena o percurso feito até aqui. Não foi em vão.
Como já disse noutra altura, poucas coisas são mais bonitas que dar propósito e alento a quem dele precisa.
Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990