Opinião
O essencial é invisível aos olhos
De onde vem esta ideia generalizada de imagem ideal? Há cuidados a ter, obviamente, mas uniformizar não é caminho
Setembro avizinha-se. Seria expectável falar-vos do regresso à escola, trabalhando eu nesse contexto. No entanto, ainda cheira a férias e vou falar-vos de outra coisa.
Todos os verões, de há uns anos para cá, que tenho uma pedra no sapato. O sol e a praia, ansiado programa de férias, deixou, a certa altura, de me fazer sentido nos moldes até aí habituais. Tudo culpa dos meus melanócitos que deixaram de funcionar, condição que tornou a época de veraneio num desassossego interno. Foi como que uma paixão que tive de esquecer antes do tempo e que todos os anos me atormenta.
Tenho vitiligo diagnosticado desde 2014 e todos os verões o espelho me mostra o que não gosto de ver. Eu sei que não sou o corpo que tenho e que a beleza vem de outro lado. Sei que o que vemos vale menos do que aquilo que somos e sei que continuo a ser eu. Ninguém passou a gostar menos de mim assim, mas a imagem que vejo refletiva é outra e eu preferia a original. Na verdade, apenas eu desvirtuei o meu valor, mas quem melhor que nós para nos sabotar? É contra este inimigo interno que lutamos a maior parte das vezes, não é?
Eu faço isto comigo mesma, saboto-me. Não me critico ou envergonho propriamente, mas não aceito com tranquilidade este eu exterior com mais de 10 anos. Comparo-me, invejo uma tez homogénea, lamento não poder apanhar sol sem as reservas que tenho. Escondo-me debaixo do guarda-sol e ponho as mãos nos bolsos sempre que posso. Agasto-me e não usufruo dos momentos de descontração que na realidade deixaram de o ser. Aponto-me o dedo, como uma espécie de body shaming.
De onde vem esta ideia generalizada de imagem ideal? Há cuidados a ter, obviamente, mas uniformizar não é caminho. Caminho é a imperfeição, a variabilidade corporal e a aceitação de nós próprios e dos outros.
Alguma coisa está errada quando uma menina de 6 anos me diz que não usa bikini para não mostrar a barriga. Que não se viva prisioneiro da aparência e do que apregoam as tendências.
Eduque-se a autoestima e evitem-se padrões de beleza.
Texto escrito segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico de 1990