Opinião

Nas incidências do vento

20 fev 2026 11:23

É a eficiência da resposta que distingue um Estado funcional de um Estado frouxo

Eis que se desvela a gramática do sofrimento. Ciclone-bomba: pânico, sobressalto, vertigem. A paisagem devassada pelo vento. Façamos o estudo das perdas, do colapso. Zona de impacto: populações às escuras, falta de água. Cortes na rede de comunicação, desespero, dias e dias a fio. Torrente de chuva. Casas destelhadas, estradas intransitáveis, fábricas e estruturas arrasadas. Escolas encerradas. Negócios arruinados, empregos em risco. Desesperança, vidas falidas, irreparáveis perdas.

Eis o retrato da devastação infligida pela tempestade. Um ferrão que ceifou a vida a dezasseis seres humanos em território nacional. Leiria em cenário apocalíptico. O edificado a ruir. Árvores arrancadas. Carros esmagados. A moldura do caos. Estado de emergência decretado, calamidade. Das vítimas os apelos repetidos. Registo de embates, choques, colapsos. Uma catástrofe histórica. A impotência face ao afiado aguilhão da tormenta. No epicentro, uma disposição confiável a impor-se. Uma onda de solidariedade a substituir o Estado. A arte e o engenho de improvisar, a vã glória de mandar, o voluntarismo, a resiliência, tudo panaceia para remendos.

É a eficiência da resposta que distingue um Estado funcional de um Estado frouxo. Tudo isto é o ofício de viver, dirão. E que nunca conseguiremos prever o impensado, ou deter o poderio do vento com as mãos, acrescentarão outros. Usemos o amparo das palavras para aclarar a crua realidade. Ante o pulsar das melancolias, Alberto Caeiro grafou que ao «entardecer as árvores permanecem imóveis», ficando os sentidos diluídos numa só ilusão.

E eu digo, agora que perscruto «lá fora um grande silêncio, como um deus que dorme»: talvez seja o eco prolongado das lembranças, como uma ínfima hora de assombros, em que nos situámos fora do mundo. E ausculto na janela o afluir dos ruídos, o derramar turbulento da madrugada, por onde os meus sonhos estremeceram. Confluem lágrimas no pensamento, a tépida transparência do sódio. Súplica e ínsula nas derivas, tardio estrépito. As órbitas reflectem a tormenta de um vórtice.

É a esteia e a bissectriz da alma. Acto impressivo do tempo. Visão do pranto. Halo sustido. Fio aceso, soluçar de peito. Assomo líquido. Torpe aperto. Beijo mudo. Rendido concílio. Compasso de chuva. Amarga incidência. Ilusório signo. Sideração. Luz lacrimosa. «E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem, / Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.» É que «a Natureza de ontem (já) não é a (nossa) Natureza.»