Opinião
Os nossos mortos
As lágrimas da morte são de fluido distinto: contêm a dor de que não poderemos retornar ao lugar dos sorrisos
Numa fase precoce da nossa existência, a morte é uma coisa vazia e distante que só por momentos vagos e imprecisos nos toca. Porém, quando progredimos na idade, bruscamente, em dias inesperados, a morte bate-nos à porta, removendo-nos a máscara com que ocultávamos a sua vinda, obrigando-nos a constatar que afinal sempre vivera connosco.
Quando somos crianças (na verdade, seremos sempre), e nos morrem os avós, tios e entes afastados, ou porventura, os pais ou um irmão, mesmo que a tragédia nos assole, não é ainda a morte autêntica que nos colhe. Quando alguém nos morre por acidente, ou num estrondo sem aviso prévio, antes do tempo que seria de esperar, há uma parte de nós que morre com ele.
A morte começa a revelar o seu rosto, quando em redor, os amigos nos morrem, seja porque um infortúnio os levou, ou uma doença não se curou, ou porque, simplesmente, decidiram ter razão para convidar a morte a levar o seu corpo. Hoje, tenho comigo, cada vez mais, uma arca repleta de mortos.
A alguns, quando morreram, escrevi-lhes um poema ou um texto que li, e humildemente, o ofereci aos seus entes. Porque desse modo descobri que lhes deixava o pouco que podia pertencer-me, devolvendo-lhes uma pequena partícula da minha saudade. Porém, também eu me desabriguei dos amparos, das palavras de consolo ou das suas mãos de auxílio. Um novo mundo se entreabriu com os vocábulos da ausência. E uma vida desfez-se no limiar da presença e da falta de qualquer coisa que nunca saberei nomear.
Quando o meu pai morreu há mais de 33 anos, não pude despedir-me dele, tendo, porém, muitos anos depois, cumprido essa promessa de lhe dizer, em poemas e livros que redigi como cartas sem começo ou final, que era do seu colo que eu precisara. Que poderia eu mais fazer além do meu tributo ao seu legado, ele que me ensinara a pescar, a andar de bicicleta e a encontrar nos amigos os meus cúmplices? E o que poderei eu fazer agora com os nomes dos meus mortos, que por mim vão passando e partem sem se despedir? Que farei com a Ana, o Luís Vieira da Mota, o António, e tantos outros?
Não os apago da memória, nem dos esboços da amizade que perpassam no tempo e prevalecem no espaço. Eles e muitos mais, que não cabem no limite duma caixa de texto com restrição de caracteres, são uma presença insolúvel. As lágrimas da morte são de fluido distinto: contêm a dor de que não poderemos retornar ao lugar dos sorrisos. Nas últimas semanas sinto esse inconformismo.
Porque os meus mortos, têm levado consigo grandes parcelas de mim: gracejos, versos, silêncios, gestos, fotografias, lugares, virtudes, dúvidas, abraços e falhas, deixando que nos meus olhos permaneça um genuíno desígnio: também eu morro com eles. E choro com os seus, que permanecem desamparados na despedida veloz.
Desculpem-me se ouso pertencer-lhes, ainda e sempre, como se morassem na casa a que chamo núcleo dos meus consolos.