Opinião

Leiria tinha fama e proveito

14 mar 2026 16:36

O futuro é, como todos sabemos, coisa multifacetada e sem sombra de equidade

Aquilo que nos aconteceu foi “a maior catástrofe natural da história contemporânea do nosso País.”, palavras que eu e qualquer um dos habitantes do vasto território varrido pela depressão podia dizer mas que foram ditas, com uma autoridade que não tenho, por Paulo Fernandes, presidente da Estrutura de Missão “Reconstruir a Região Centro” (in Público, 20.02.2026). O que isto deveria querer dizer imediatamente era o levantar de apoios e o mobilizar de meios também nunca vistos, na prática nada disso aconteceu ou nem mesmo nas leituras mais otimistas ou mais comprometidas irá realmente acontecer num futuro vislumbrável.

Entregues a si mesmo os municípios reagiram, fizeram o que puderam e é isso que continuarão a fazer, empenhando o presente e colocando qualquer futuro mais promissor para lá da linha do horizonte. Uns reagiram bem, outros menos bem. Leiria, se houvesse alguma justiça nestas coisas, seria certamente exemplar. 

Os seres vivos distinguem-se dos não vivos porque reagem a estímulos, é por isso e só por isso, que amebas e paramécias são seres vivos. As reações são lógicas, imediatas e intuitivas, respondem ao momento idealmente com eficácia e são absolutamente vitais para garantir a salvaguarda do fundamental, seja a vida sejam os bens mínimos de bem estar físico e psíquico.

Percebo com uma clareza transparente a avalanche de necessidades materiais geradas pela catástrofe e a escassez de meios disponíveis para uma resposta satisfatória mas, talvez mais por feitio do que defeito, sou incapaz de não tentar ver a cada momento um pouco mais à frente. O futuro é, como todos sabemos, coisa multifacetada e sem sombra de equidade.

Também por isso não é uma boa notícia para a vida das sociedades e para a sanidade psíquica dos cidadãos a que nos diz que o investimento em cultura, mesmo talvez o investimento mínimo, se traduz e se esgota em trabalhos de construção civil. 

Leiria tinha fama e proveito de uma vida cultural muito ativa. É uma construção complexa e muito frágil a quem já bastava a ventania arrasadora. Não era preciso acrescentar mais nada ao desastre.

Texto escrito segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico de 1990