Opinião
Noélia que encontres redenção
Quando veremos legislação para criminalizar quem espalha mensagens nas redes sociais baseadas na pura ignorância e estupidez?
E a nós, sociedade que te falhou, nos concedas perdão. O nosso país vizinho Espanha comoveu-se e mobilizou-se pela jovem Noélia de 25 anos que após o seu pedido de eutanásia ter sido aceite em 2024, travou uma batalha judicial de mais de 600 dias contra o seu próprio pai.
A 26 de março de 2026 viu o seu desejo cumprido.
Esta crónica não é sobre eutanásia nem sobre o direito de escolha. É sobre nós enquanto sociedade que falha na proteção das crianças e jovens em risco.
Após o divórcio dos pais, Noélia ficou entregue ao estado. Sofreu vários traumas e abusos, um dos quais um abuso sexual em gangue. Tentou o suicídio várias vezes. Na sua última tentativa atirou-se de um quinto andar. Ficou paraplégica e com dores crónicas e intensas permanentes. Vivia num lar de idosos.
Dá vontade de perguntar: mas só no final da vida é que ela se torna sagrada? E o antes? Antes da eutanásia, não fazia mal objetificar, usar, maltratar e negligenciar Noélia? E mais uma vez a saúde mental falhou.
E depois de tudo acontecer? Que respostas demos a esta jovem?
Noélia dizia numa entrevista que não entendia a luta do pai nos tribunais pois enquanto esteve institucionalizada nunca a foi visitar. O primeiro sistema que falhou foi a família e depois o estado e toda a sociedade que simplesmente virou a cabeça para o lado.
Não querendo ser maldizente, parece que tudo foi apenas pelo circo mediático. Mesmo nessa altura nunca foi sobre defender Noélia. Foi sobre defender princípios e ideias e sobrepor-se à vontade individual.
Noélia já tinha perdido o mais importante, a esperança de uma vida boa. Ela foi martirizada pela vida mas não quis ser uma mártir. Quis sair de cena nos seus próprios termos e tempo.
E sobre circos mediáticos, não posso deixar de notar como as redes sociais continuam a servir de palco para ditos influencers que espalham desinformação (disparates) sobre saúde mental.
Nomeadamente a personagem que afirmou que depressão era fraqueza assim como tomar medicação para a mesma. Que simplesmente seria uma questão de força de vontade.
Ora quantas pessoas se terão sentido influenciadas a largar repentinamente a sua medicação e tratamento por não quererem ser consideradas fracas?
Deixem-me que vos diga eu que trabalho em saúde mental e muito concretamente com trauma. É precisa muita coragem para olhar os nossos monstros de frente e decidir quebrar padrões doentios familiares e da sociedade.
Quando veremos legislação para criminalizar quem espalha mensagens nas redes sociais baseadas na pura ignorância e estupidez?