Opinião
Desarmar a IA religando a magnífica humanidade
O desregulado modelo massivo de negócio, à margem da lei, impulsionado pela IA, induzindo à mercantilização algorítmica, conduz ao enfraquecimento das virtudes humanas
Os manifestos do pensamento modificam o curso da História. Mais do que um documento meramente teológico ou doutrinário, a encíclica Magnifica Humanitas, apresentada pelo Papa Leão XIV na passada semana, versando “sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da IA”, é um exercício de discernimento sobre alguns dos grandes dilemas da revolução tecnológica actual.
A anarquia social e emocional de hoje, correlaciona-se com o sistema de conectividade mais vasto alguma vez utilizado na humanidade, incomparável a qualquer outro momento da evolução do Homo Sapiens.
A correlação entre o incremento do uso da IA e redes sociais e o declínio da saúde mental, levanta sérios dilemas: como pode uma crise global de ruptura psicossocial ser resultado directo do sistema de ligação universal sem precedentes?
A resposta ao paradoxo está diante do nosso olhar. O desregulado modelo massivo de negócio, à margem da lei, impulsionado pela IA, induzindo à mercantilização algorítmica (a nossa atenção ao mundo, uns aos outros e a nós mesmos), conduz ao enfraquecimento das virtudes humanas. E o que há a fazer?
Por um lado, o aprofundamento da investigação científica; por outro, um exercício de discernimento moral, consciente e pragmático. Fortalecer a pesquisa científica, identificando componentes do design de algoritmos que afectam a saúde mental (padrões obscuros e interfaces concebidos para lograr os utilizadores).
Reeducar e religar Todos, fornecendo uma compreensão contextual do alcance e da natureza do problema (p.e., considerar o tempo excessivo de ecrã, não como uma falha pessoal, mas como a exploração por parte dos gigantes corporativos que exploram a atenção).
Evidências crescentes sugerem que um depurado activismo da atenção (p.e., actividades e tarefas orgânicas comunitárias de adesão voluntária para a dinamização de espaços e momentos de atenção, na natureza, de criatividade e partilha, preservados e desconectados de tecnologia), pode ser um factor determinante para quem procura alívio da sobrelotação da mente.
“Desarmar a IA significa subtraí-la à lógica da competição armada, que hoje não é apenas militar, mas também económica e cognitiva. Na era da inteligência artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser eclipsada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, preservando (…) aquela magnífica humanidade que nos foi dada (…), que nenhuma máquina jamais poderá substituir em seu esplendor”, Robert Francis Prevost dixit.