Editorial
É uma casa portuguesa...
Há mais de duas décadas que se anunciam projectos, intenções e planos para os imóveis
Se há lugares que ao longo dos anos se vão tornando símbolos da má gestão do património e da lentidão das (in)decisões públicas, as antigas casas dos magistrados, na avenida Marquês de Pombal, em Leiria, são um desses exemplos. Devolutas há anos, continuam a degradar-se, enquanto no edifício ao lado estão acomodados os serviços do Ministério Público, em instalações arrendadas, pagas pelo Estado.
Há mais de duas décadas que se anunciam projectos, intenções e planos para os imóveis. Já se prometeu a sua recuperação para utilização dos serviços do Ministério da Justiça, depois equacionou-se a demolição e a construção de um novo edifício, e agora, está em cima da mesa a hipótese de uma possível venda. Entretanto, o tempo vai passando e o assunto mudando de dono entre gabinetes e ciclos governativos.
A explicação agora dada pelo Ministério da Justiça é burocrática: “irregularidades de registo” impedem qualquer passo até que o lote seja regularizado. No papel, pode parecer uma questão técnica; na prática, é mais um capítulo de uma longa novela, onde a inércia administrativa assume o papel principal. E, lamentavelmente, não será caso único no País. O paradoxo é evidente. O Estado gasta milhares de euros anuais em rendas para instalar serviços dispersos, enquanto mantém imóveis próprios ao abandono. Esta opção é duplamente penalizadora: para os contribuintes, que financiam o desperdício, e para a cidade, que vê o património degradar-se num dos seus núcleos urbanos mais emblemáticos.
A cada novo anúncio, como o que foi agora revelado ao JORNAL DE LEIRIA, renasce a esperança de que desta vez é que vai ser (apesar da experiência nos dar mostras da incapacidade do Estado em dar uso inteligente ao que é seu e cumprir com a palavra dada). Resta, por isso, aguardar com expectativa que o som dos martelos, das gruas e das betoneiras substitua o eco das promessas.