DEPRESSÃO KRISTIN

O caminho de Paulo, o presidente da junta que “será o último a ter luz”

1 mar 2026 10:00

Paulo Felício tem-se apercebido do impacto emocional latente em muitas pessoas

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Paulo Felício enfrentou prova de fogo poucos meses após a eleição
Fotografia: Ricardo Graça
Jacinto Silva Duro

Quando o vento e o troar da tempestade Kristin amainaram por fim, o silêncio que se seguiu parecia irreal.

A calmaria, afinal, chegou após a tempestade.

Paulo Felício, o presidente União de Freguesias de Santa Eufémia e Boa Vista, saiu de casa com o coração apertado.

O cenário que viu era apocalíptico.

Havia telhados arrancados, paredes derrubadas, postes eléctricos de alta tensão vergados e árvores tombadas sobre as estradas. E o sol ainda não havia nascido.

A primeira luz revelou-se ainda mais cruel, com as notícias de uma vítima mortal.

Em pouco mais de duas horas de tormenta, o seu primeiro mandato como presidente de junta transformou-se em prova de fogo.

Hoje, passado um mês sobre a passagem da tempestade, o telemóvel, tal como acontece aos restantes autarcas neste território, não pára de tocar, enquanto percorre as ruas das duas freguesias a que preside ao volante de uma velhinha carrinha branca, sempre de vidro aberto.

Pára para assinar declarações, toma nota de cabos eléctricos caídos em cima de árvores e de famílias sem energia, mas, em casa, continua sem electricidade.

Ainda com dezenas de fregueses na mesma situação, diz que seria injusto não resolver primeiro os problemas dos outros.

Afinal de contas, foi escolhido pelos eleitores para servir e reforçar a comunidade, tal como o santo que lhe dá nome.

Mas se aquele foi um dos primeiros a ver a “luz” no caminho para Damasco, Paulo Felício ainda está às escuras.

“O presidente da junta será o último a ter luz. Na junta, estamos preocupados é com o vizinho, com a criança que é a única da turma que não consegue estudar, com os idosos que precisam de máscaras para dormir ou de banhos quentes”, afirma.

Os primeiros dias após a tormenta foram um desafio tremendo.

A primeira meta foi a limpeza das estradas para que o socorro passasse e garantir água potável nas torneiras.

E foi assim que, apesar da solidariedade de muitos, também surgiu a face feia da Humanidade.

Alguém furtou as bombas da estação elevatória de água da Boa Vista, deixando milhares de pessoas sedentas.

Também os cabos, em cobre, do gerador instalado no pavilhão gimnodesportivo de Santa Eufémia, onde a junta centralizou todos os serviços, comunicações e apoio, desapareceram misteriosamente.

A resposta foi imediata. Criou-se um piquete de vigilância 24 horas por dia, composto por elementos da autarquia e voluntários. “Não podíamos perder o pouco que tínhamos”, recorda Paulo Felício, sublinhando a necessidade de proteger recursos mínimos para servir a população.

Tal como no restante território afectado, a dificuldade em restabelecer a electricidade tem sido o maior obstáculo.

As equipas de reparação enfrentaram chuva, vento e terrenos alagadiços onde as gruas não conseguiam entrar.

“Houve um acompanhamento diário com a Protecção Civil e as várias entidades, mas a E-Redes nunca dava prazos”, desabafa o autarca, consciente da insustentabilidade da situação para quem tem de recorrer a geradores que pesam grandemente no orçamento familiar.

“O combustível dos pequenos geradores em casa sai do bolso das pessoas e a factura é enorme”, reconhece.

Stress Pós-Traumático

Paulo Felício tem-se apercebido do impacto emocional latente em muitas pessoas. É stress pós-traumático que se lê nos rostos saturados e impacientes, mas que diz que as equipas da junta de freguesia tentam combater com presença e acção.

“As pessoas reconhecem que procurámos estar próximos, não nos escondemos”, afirma, referindo que o pavilhão de Santa Eufémia se tornou, enquanto esta situação se mantiver, a “base de vida” da freguesia, oferecendo banhos quentes e centralizando a coordenação e os recursos.

Mas o autarca não esquece que, se a tempestade trouxe um cenário de devastação, também revelou o melhor da solidariedade humana.

Empresas e voluntários vieram de para ajudar.

E se a EST, administrada pelo anterior presidente da junta, Mário Rodrigues, já faz parte da “mobília”, foi para surpresa de todos que apareceu, de Felgueiras, a empresa de construção Pedrigosende que deslocou, a expensas próprias, material de construção, um exército de 18 funcionários e três administradores que, durante três dias, repararam telhados gratuitamente.

De Guimarães, a freguesia de Prazins Santa Eufémia, unida pelo nome e pela empatia, sem aviso prévio, enviou equipas que ainda hoje trabalham no terreno.

Dormiram em colchões no pavilhão, cujas janelas tinham sido arrancadas pelo vento.

“São bons exemplos para o mundo”, diz Paulo Felício, emocionado com os voluntários que deixaram os seus lares para ajudar a reconstruir o que o vento levou.

O presidente da junta recorda o trabalho de toda equipa da união de freguesias, também com os seus lares afectados, e conta que até os opositores políticos se juntaram ao esforço de voluntariado, deixando de lado as querelas em prol do bem-comum.

Paulo Felício diz que só descansará quando a última lâmpada se acender na última residência da sua união de freguesias.

Até lá, continuará a percorrer as ruas, a dar palavras de conforto via Facebook ou WhatsApp, e a lidar com o expediente burocrático ao final do dia, onde quer que encontre um sinal de internet.

Esta crise, acredita, não é apenas uma gestão de danos, é uma redefinição da ordem local, que levará à criação de unidades de protecção civil mais robustas e preparadas para um futuro com um clima mais desordenado.