Entrevista

Rafael Caldeirinha: “Em situação de emergência, os telemóveis devem ser agnósticos do operador”

7 mai 2026 08:30

O professor da Escola Superior de Tecnologia e Gestão defende que as infraestruturas críticas têm de garantir redundância

Rafael Caldeirinha
Ricardo Graça

Participou num encontro de especialistas promovido pelo Presidente da República. Que abordagem integrada das infra-estruturas de comunicações defende?
Defendo que as comunicações têm de ser resilientes e, numa situação de desastre, devem conseguir recuperar da situação pós-desastre. Depois, há que distinguir aquilo que são as comunicações críticas das demais comunicações. As comunicações críticas podem-se dividir nas comunicações de emergência, e aqui falo concretamente do Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP), que deve ser um activo de soberania do Estado e que deve depender só de si. As comunicações críticas devem ser, de facto, resilientes e para isso temos de perceber que tipo de eventos é que podemos vir a ser confrontados. No caso dos incêndios, por exemplo, foi identificado que a energia das baterias dá para seis horas. Mas percebemos, recentemente, com o apagão que as seis horas já não são suficientes. Provavelmente têm de ser 72 horas ou mais. Isto quer dizer que temos de dimensionar os sistemas para a resiliência e para a redundância, de acordo com o tipo de eventos a que vamos estar sujeitos. Essa criticidade deve ser avaliada caso a caso. Aquilo que era a preocupação com os fogos, agora são as tempestades ou um corte energético. Portanto, os sistemas têm de conseguir ser resilientes.

O que significou para si colaborar com o Presidente da República?
Foi uma grande surpresa, mas também uma honra e um privilégio perceber que o trabalho de investigação que temos vindo a desenvolver ao longo dos anos, sobretudo nas comunicações críticas, em particular o SIRESP, de alguma forma chegou ao Presidente da República, que depois teve a amabilidade de me convidar. É um contributo ainda singelo, mas que tem margem para evoluir. Estou disponível para integrar grupos de trabalho no sentido de melhorar as comunicações críticas ao serviço da nossa sociedade.

Temos de dimensionar os sistemas para a resiliência e para a redundância, de acordo com o tipo de eventos a que vamos estar sujeitos
Rafael Caldeirinha

Agora que entregou o relatório, vai haver seguimento?
Não sei, mas gostava. Houve um entendimento generalizado dos três especialistas na área das comunicações que estiveram nesta reunião, pelo que acredito que o Presidente da República faça eco junto do Governo, pois tem de ser o Governo a avançar. É importante que se criem equipas técnicas independentes que possam ter memória técnica, que identifiquem as estruturas críticas e que trabalhem em cima delas. A academia não deve ser chamada só quando há problemas. É preciso antecipar e testar várias soluções tecnológicas para mitigar os problemas.

Qual é o papel do Estado?
Em primeiro lugar, deve definir aquilo que são as infraestruturas críticas do País, sejam públicas ou privadas. Podem ser também, por exemplo, parte das infraestruturas dos operadores móveis e poderá ser este o contributo dos privados ou responsabilidade social com contrapartidas a definir. Os operadores deveriam garantir a resiliência e a recuperação para os desastres e permitir o roaming nacional. No caso das comunicações à população, pode haver várias formas de o fazer. Provavelmente, teremos de voltar aos sinais de fumo, aos sinos das igrejas ou à sirene dos bombeiros. Tivemos a sorte de a tempestade acontecer durante a madrugada. Portanto, o recolher obrigatório foi quase garantido. Mas se tivesse sido durante o dia, tinha sido uma catástrofe. Sem comunicações, deve haver mecanismos de comunicação à população, mais analógica, de forma a que as pessoas percebam que há um problema e tenham de recolher. Se houver uma guerra ou um golpe de Estado, um operador privado não pode obrigar os seus funcionários a fazer manutenção, a menos que haja uma requisição civil. Portanto, o Estado tem de ter um modelo de governança para essas infraestruturas críticas, que cumpram os critérios todos de redundância e de recuperação. No caso do SIRESP, as estações-base, os nós da rede, podem estar ligados aos comutadores - não sei se os comutadores têm redundância ou não, isso é outra questão -, mas as ligações, podem existir por fibra (cabo), mas também por feixes hertzianos e com mais do que um caminho, tirando partido de uma infraestrutura que o Estado já detém – a IP. A Infraestruturas de Portugal tem, ao longo das vias de comunicação, seja rodovia, seja ferrovia, condutas técnicas enterradas. Em 2019, tinha indicação que havia mais de 700 salas técnicas de acesso à infraestrutura fibra óptica enterrada, em condutas técnicas, que são resilientes. Entre elas não distanciam mais do que 30 ou 40 quilómetros. Portanto, só temos de assegurar a ligação dos nós da rede a esta infraestrutura.

O rádio não é suficiente?
Temos de garantir que essa emissão de difusão também é resiliente. Há que assegurar um pack de resiliência para a população. É importante que haja coordenação e que haja uma estação rádio ‘112’, que seria uma estação de rádio para difusão em situação de catástrofe. A população também tem de ser formada nesse sentido. Depois, é importante garantir conectividade à população em pontos-chave do território, como por exemplo, comunicações por satélite, como as que a Câmara de Leiria colocou em juntas de freguesia, o que permitiu que as pessoas pudessem falar com a família. À data de hoje, não tenho ligação de dados da internet em casa e vivo na Ortigosa. Portanto, estamos a falar de três meses depois e continuamos ainda sem ligação à internet.

Por que é que se mantêm essas falhas?
Porque toda a infraestrutura do operador, que estava suportada em postes de madeira, caiu e demora o seu tempo até restabelecer. Ainda vemos linhas de telefone penduradas. O que colapsou foi todo o sistema de distribuição.

Falou-se da questão do roaming. Deveria haver uma obrigatoriedade em caso de catástrofe?
O roaming nacional é outra solução que também preconizo. Em situação de emergência, os telemóveis devem ser agnósticos do operador, ou seja, devem ligar-se à rede móvel que esteja disponível. Esta questão está interligada com as infraestruturas críticas dos operadores. Num determinado território, pode um operador assegurar uma infraestrutura crítica e outro num território diferente. Assim, asseguramos um nível de comunicação mínimo. Em situação de catástrofe vale tudo e o que importa é assegurar a comunicação às populações. Por exemplo, na fibra óptica, muitos dos operadores já partilham entre si a infraestrutura. Seria extrapolar isso. Se isto fosse concertado, não seria muito difícil conseguir que se criasse esse tal roteiro das infraestruturas críticas.

Quais as vantagens e desvantagens de enterrar as linhas?
Depende do tipo de eventos a que estamos expostos. Se houver um deslizamento de terras, as linhas de comunicação enterradas também podem sofrer danos. Mas, no nosso território, temos sido essencialmente fustigados pelos fogos, pelas inundações e pelos ventos. Portanto, estando enterradas não estão tão expostas às intempéries. Podemos tirar partido de condutas técnicas enterradas já existentes, quer da IP quer nas cidades. É preciso que as ligações das estações-base aos comutadores seja efectuada com redundância, preferencialmente por feixes hertzianos até ao ponto de injecção da infraestrutura enterrada mais próxima. O satélite diria que é uma solução a evitar ou a usar apenas como redundância. Porquê? Porque a largura de banda é limitada, não se conseguem taxas de transmissão de dados tão elevadas e tem um custo elevado para o operador. Depois há a questão de soberania do Estado sobre as comunicações críticas, sendo que tal não é garantido se estas dependerem de terceiros, sobretudo no contexto geopolítico em que vivemos.

Como é que avalia a eficácia dos sistemas de alerta público através de SMS?
Haveria outras formas de chegar à população? Recebi esse SMS, mas não lhe dei o valor que lhe era devido. Nessa noite não vi os telejornais e até havia indicação que a tempestade entrava por Aveiro. Portanto, desvalorizámos. Têm de existir outros mecanismos de alerta para chegar à população. Se o alarme de incêndio tocar aqui na escola, todos estamos treinados para nos deslocarmos ao ponto de concentração obrigatório. Tem de haver algo desse género.

A fibra óptica tem maior resiliência do que as outras linhas de comunicação?
A fibra óptica é um meio físico, ao contrário do rádio, que não tem a necessidade de ter uma ligação física. Funciona através de ondas de rádio. A fibra óptica tem a vantagem de ter grande largura de banda, enquanto o rádio é um pouco mais limitado, porque o meio de propagação tem mais obstáculos que afectam a sua propagação. Mas é mais resiliente.

O ideal seria um sistema híbrido?
Exactamente. Não há apenas uma solução. Deverá ser um sistema de sistemas. Daí que muitas pessoas tenham agora optado por ter ligações de satélite em casa para a redundância.

Qual é que tem sido o papel do Politécnico de Leiria, neste caso da ESTG, em colaborar com a sociedade?
Temos uma delegação do Instituto de Telecomunicações. É um laboratório associado ao Estado, que tem dois grupos de investigação. O grupo que eu lidero, é o de antenas e propagação. Tem a ver com toda a interface rádio, desde as antenas à cobertura. Temos colaborado na investigação mais fundamental aplicada a estudar fenómenos específicos, como o caso dos incêndios. Temos também outros projectos com operadores. Por exemplo, temos um projecto com a Altice Labs para conseguir ter redes 5G nas cidades de forma a que as estações-base sejam integradas no ambiente urbano, numa forma mais harmoniosa. Temos estado a desenvolver projetos na área para além do 5G, nomeadamente o 6G, assim como em desenvolver ambientes de rádio inteligentes, novas estações-base, etc. Responder às solicitações que nos chegam do Governo é também o nosso papel social, que não deve ser pontual, mas contínuo.

 

Perfil
De Londres para Leiria
Rafael Caldeirinha nasceu em Leiria, no ano da Revolução de Abril. É professor coordenador principal na Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Politécnico de Leiria. Licenciou- -se em Engenharia Electrónica e de Comunicações e doutorou-se pela Universidade de Glamorgan, Reino Unido e detém o título de Agregado pela Universidade de Aveiro. É investigador sénior, coordenador do Cluster de Antenas e Propagação e da área de Tecnologias Rádio e responsável pelo Grupo de Investigação em Antenas e Propagação (A&P Lr) em Leiria, do Instituto de Telecomunicações. Desde 2001, lecciona na área das Telecomunicações no Politécnico de Leiria. Os seus interesses científicos incluem propagação rádio em meios rurais e incêndios florestais, sondagem e modelação de canais rádio, radar e radiometria. É autor ou coautor de mais de 250 artigos científicos, detém duas patentes nacionais e é presidente da Comissão Técnica Nacional de Normalização Electrotécnica CTE 106 e membro da Direção da Associação Europeia de Antenas e Propagação.