Economia
Entre saudosismo e electrificação, mercado automóvel reinventa-se
O panorama automóvel regional espelha o que se passa a nível nacional, apresentando-se como um cenário em profunda mutação, onde a resiliência se cruza com desafios geopolíticos e com a transição energética que já não admite recuo
Entre a pressão da concorrência da China, a instabilidade dos preços dos combustíveis e a recuperação das tempestades do início do ano, a fileira automóvel navega por águas agitadas. Para compreender esta realidade, o JORNAL DE LEIRIA ouviu Paulo Carvalho, Nuno Roldão e Paulo Conceição, responsáveis de entidades incontornáveis do ramo.
Fragmentação do mercado e regresso ao saudosismo
Entre a fragmentação do mercado e o regresso ao saudosismo, Paulo Carvalho, director comercial na MCoutinho, centra a sua análise na nova configuração do mercado eléctrico, que já detém, segundo os dados mais recentes da ACAP – Associação Automóvel de Portugal, uma quota de 24,7%.
Apesar do crescimento, alerta para um fenómeno de dispersão, recordando que “o mercado basicamente é o mesmo, embora com um ligeiro acréscimo e mais repartição por marca”.
Com a entrada de cerca de 14 novas chancelas, maioritariamente chinesas, as vendas estão a ser fatiadas de forma mais agressiva, exigindo dos fabricantes europeus uma postura defensiva e inovadora.
Esta nova vaga de fabricantes é vista por Paulo Carvalho como uma “moda, semelhante ao fenómeno inicial da Tesla”, que está a atrair consumidores portugueses de forma crescente. “Começa a haver um desvio muito grande para as que estão a começar a entrar...”, diz, admitindo um novo equilíbrio, dentro de pouco tempo.

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A resposta europeia tem passado por aquilo que o director comercial descreve como “ir buscar o saudosismo e a fiabilidade”. Assim, a Volkswagen baptizou o novo ID.2 como ID.Polo, enquanto a Renault apostou na recuperação de ícones como o Renault 4 e o novo Renault Twingo E-Tech 100% Eléctrico. É, nas suas palavras, a procura por “refúgios conhecidos, numa época de grandes mudanças”.
Paulo Carvalho identifica também um obstáculo estrutural na indústria automóvel europeia, que se traduz na dependência crítica da China em relação ao fornecimento de baterias de lítio. “Nesta questão, teremos de estar, para já, nas mãos da China”, afirma, reconhecendo que, embora já existam fábricas de baterias a surgir na Europa, os materiais básicos continuam a vir do Oriente.
Regionalmente, a curto prazo, destaca o lançamento do Renault Twingo, com preços entre os 19.100 e os 21.500 euros, e a actualização do Mégane, cuja autonomia deverá chegar aos 600 quilómetros. O mercado empresarial continua a ser o grande impulsionador, com vantagens fiscais que podem reduzir o custo real de um eléctrico cujo preço seja de 19.500 euros para cerca de 15 mil euros.
Choque energético e barreiras ao consumidor particular
Para Nuno Roldão, vice-presidente da ANECRA – Associação Nacional das Empresas do Comércio e da Reparação Automóvel e administrador da Lubrigaz, o mercado em 2026 está já “muito estabilizado”, com um desempenho ligeiramente superior ao do ano anterior.
Reconhece uma acelerada electrificação, cuja força motriz foi a crise no Médio Oriente e a consequente escalada dos preços dos combustíveis, que gerou uma “procura acentuada”.
O empresário compara as consequências do momento actual ao choque petrolífero dos anos 70, na alteração de filosofia e de opções do consumidor. Se naquela época, os carros compactos e económicos japoneses foram a resposta, agora, “o refúgio foi na electrificação”. “Este pico de procura foi tão intenso que até viaturas de serviço e usadas foram escoadas.”
Os primeiros seis meses do ano, confirmaram que o mix de vendas mudou. O gasóleo continua em queda acentuada, a gasolina estabilizou e os híbridos plug-in ganharam terreno. O parque circulante eléctrico/electrificado está acompanhado por uma rede de carregamento público que começa a dar uma resposta consistente.
Apesar de tudo, persiste uma clivagem social no acesso à tecnologia. Enquanto as empresas aderem massivamente pelas facilidades fiscais, “os privados continuam a ter mais alguma dificuldade em aceder a estes carros”, mesmo com os apoios do Fundo Ambiental, que tem esgotado rapidamente.
A nível industrial, Nuno Roldão é peremptório e diz que a Europa tem de reagir para sobreviver à concorrência chinesa.
A solução passa por aumentar a capacidade de produção própria de baterias e explorar alternativas ao lítio. Para o segundo semestre, o vice-presidente da ANECRA antecipa a chegada de modelos cruciais para o Grupo Volkswagen e uma ofensiva de marcas chinesas como a Xpeng, que prometem “abanar o mercado pelo preço”.
Resiliência regional e paridade de preços
No plano regional, Paulo Conceição, administrador do Grupo NOV Automóveis, destaca o sucesso da estratégia da Stellantis que colocou os veículos comerciais eléctricos das suas marcas ao preço dos comerciais térmicos. A paridade de preços permitiu à Peugeot atingir quase a meta anual de vendas eléctricas num único mês, logo no arranque do ano.
O mercado nacional, entende, parece ter encontrado um novo equilíbrio na electrificação, impulsionado paradoxalmente por crises externas e eventos climáticos. Se 2026 ficará na memória como o ano da recuperação da Kristin, será também lembrado como o momento em que a paridade de preços e o regresso aos nomes icónicos começaram a definir quem sobreviverá na nova ordem automóvel global.

No âmbito do Grupo NOV Automóveis, para o segundo semestre, Paulo Conceição aponta com expectativa a chegada do 208 GTI eléctrico da Peugeot, o Grande Panda da Fiat e, no último trimestre, os modelos Grizzly e Grizzly Fastback. Na Volvo, que a empresa comercializa no concelho de Ourém e distrito de Santarém, as atenções centram-se na chegada do EX60, 100% eléctrico e sucessor espiritual do XC60, o SUV mais vendido da marca.