Entrevista
Telmo Pereira: “na região, praticamente em cada gruta em que se entra há uma necrópole”
13 ago 2026 08:00
Investigador responsável pelo EcoPLis - Ocupação Humana Plistocénica nos Ecótonos do Lis, explica o que seis dentes com 20 mil anos, de uma gruta da Boa Vista, podem revelar sobre quem aqui viveu
Há dez anos que estuda, com a sua equipa, o Abrigo da Buraca da Moira, no vale dos Murtórios, na Boa Vista, em Leiria. Em traços gerais, em que consiste o EcoPLis?
Temos duas vertentes. Uma científica, para fazer o desenvolvimento da ciência, do conhecimento e outra pedagógica, para formar estudantes, para que depois possam também desenvolver outros estudos. A finalidade científica prende-se com as características da região. Está muito na voga falar-se das alterações climáticas, mas elas não são uma novidade. São um pulsar da forma como o planeta funciona e que tem a ver, por exemplo, com a distância do planeta ao Sol, que não é sempre a mesma. Sabemos que, entre 27 mil e 19 mil anos atrás, houve uma grande crise climática, quando o planeta esteve mais frio. A leitura do planeta mostra-nos que, nos períodos quentes, as calotas polares são menores e, portanto, há mais água em circulação e mais vida. Quando está mais frio, há menos água disponível, porque está congelada, e há menos biodiversidade. No período que estamos a estudar, através de escavações em Leiria, na Buraca da Moira, vemos populações caçadoras-recolectoras, com menos meios para mitigar o frio e menos recursos. Esse tempo, ao qual chamamos o último “máximo glaciar”, é um período de muito frio. Era possível ir à Berlenga a pé, pois o nível do mar estava cerca de 130 metros mais baixo do que agora, devido à água retida nos pólos e nas montanhas. Mas havia locais onde, apesar das dificuldades, havia condições boas, ou pelo menos melhores, para viver.
Tais como?
Um deles é a região da Estremadura, onde há uma zona fantástica que é a bacia do Lis. Embora não seja um rio muito grande como o Tejo ou o Douro, nasce nas montanhas, atravessa uma série de regiões em calcário e vai desaguar ao mar, que, à época, estava muito mais afastado. Ao longo de muitos anos a correr por esta região, o Lis e os seus afluentes criaram uma série de grutas e de abrigos, em vales abrigados como o dos Murtórios, na Boa Vista, o do Lapedo ou o das Chitas, onde havia nascentes que corriam o ano inteiro e vegetação. Onde havia vegetação, havia animais para caçar e excelentes condições para se sobreviver. Nós queremos saber como essas pessoas viviam nessa época e quais as suas características. Este território é quase um laboratório, porque é relativamente pequeno, conseguimos correr a paisagem com alguma facilidade e ir da montanha até ao mar e perceber por que razão aqueles sítios específicos foram escolhidos em detrimento de outros. Depois, iremos transpor esse retrato para territórios maiores, como os vales do Tejo ou do Douro.
E a questão pedagógica do trabalho?
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