Entrevista
Marco Neves: “África vai passar a ser o continente com mais falantes de português”
27 fev 2025 09:00
O linguista aborda o fundamental da língua portuguesa: a origem galaico-portuguesa, sotaque “lisboeta” e o sotaque padrão, e as diferenças entre o português europeu e brasileiro. Nas redes sociais, é um caso de sucesso pelo modo como aborda o português, além do “certo e errado”. Tudo começou numa “viagem” no TikTok
A nossa língua deve ser designada português ou galaico-português?
A designação galaico-português foi criada no século XIX para descrever uma coisa que existiu, antes de haver Portugal, e que não pode ser chamada português. Antes da nacionalidade, já se falava essa língua, naquilo que é agora a Galiza,o Minho e uma parte de Trás--os-Montes. Não tinha um nome, embora alguns galegos digam que já seria “galego”. Houve mesmo um poeta francês que assim lhe chamou. O que as pessoas falavam no dia-a-dia, não era bem-visto e era apenas “linguagem”, que começou a ser um pouco mais bem vista, quando os poetas começaram a usá-la nos poemas, mas não lhe chamavam português nem galego. Já não era latim, mas a língua do dia-a-dia. Quando Portugal se tornou um país independente, começou bastante mais cedo do que outros países na Europa, a usar a sua própria língua nos documentos oficiais. D. Dinis é muitas vezes associado a isso, mas já antes se fazia. Mas essa língua ainda não se chamava português. Só no século XV é que alguém o baptizou como “português”. A grande dúvida – para os galegos, em especial -, é se galego e português são a mesma coisa. Há alguns, uma minoria, que defendem que sim e escrevem o galego segundo as regras da ortografia portuguesa. Mas mesmo os que não defendem essa ideia, escrevem e falam algo muito parecida como português do norte falado pelas gerações mais velhas. Se ouvirmos um galego de uma aldeia da zona do Gerês/Xurês e um português de uma aldeia do lado de cá, não notamos muitas diferenças. Claro, se ouvirmos alguém da cidade a falar, escutaremos um galego muito castelhanizado. É uma das fronteiras mais antigas do mundo, datada do século XII, e, linguisticamente, a fronteira é quase como se não existisse. Só nas últimas décadas, porque os galegos falam mais castelhano e nós falamos mais “à lisboeta” é que se começou a notar uma maior diferença. É algo que começou nos últimos 50 ou 60 anos.
O País fala “à moda de Lisboa”?
As pessoas associam muito o sotaque à região, mas o vocabulário que usamos e muitos outros aspectos da língua mudam não só com a região, mas com a classe social, com a família ou com os grupos profissionais. Nos últimos 200 ou300 anos, na Europa, criou-se a necessidade, por passarmos a ter estados centralizados, com escolas e comunicação social, de termos uma forma considerada “correcta” de falar e de escrever. Na escrita, faz sentido, porque temos de ter um padrão, mas, na oralidade, acabou por criar-se esta ideia, mais ilusória do que real, de que há uma forma correcta e as outras são deturpações, quando, muitas vezes, as“deturpações” são mais antigas do que a suposta forma correcta. Que sotaque é este que chamamos de sotaque padrão? É difícil de definir. Não é exactamente lisboeta, porque há muitas pessoas em Lisboa que têm um sotaque muito diferente, até de bairro para bairro. É um sotaque baseado nos usos da Corte e das elites das cidades do litoral, que vão de Lisboa até Coimbra, incluindo Leiria. Ninguém definiu isto. Foi um processo relativamente natural, por causa do poder destas cidades no País. Todos os países têm tendência para ter um sotaque padrão, mas há países que lhe dão mais importância do que outros. E Portugal dá bastante importância. Era difícil, até há pouco, vermos na televisão alguém com um sotaque diferente. Temos exemplos absurdos de séries de televisão que se passam noutras zonas do País e as pessoas falam todas à lisboeta ou com tentativas de limitar o sotaque local, o que, por vezes, ainda é pior.
É mesmo verdade que não importa como se escreve, porque todos se entendem? Nas redes sociais, especialmente entre as pessoas do Brasil, essa parece ser uma “regra”inquestionável.
Não há razão para impor um sotaque à força e dizer a um miúdo que não pode falar como os pais falam. Quanto à gramática e vocabulário, existe uma norma. Isso não quer, forçosamente, dizer que, ao considerarmos que dizer “água” é a forma correcta, quando há muitas pessoas que dizem “auga”, quando esta é, até, a forma mais antiga, da palavra. A norma escolheu “água”e o miúdo aprenderá na escola que água é a forma como vai ter de escrever.Não devemos desprezar as formas tradicionais de falar a nossa língua, mas, nesta sociedade em que estamos, aprender a norma da língua é mais importante, caso contrário, um miúdo terá muitas dificuldades na escola e na vida. Ainda assim, a língua, felizmente,é bastante robusta e aceita a variação mais do que pensamos... Veja-se extremos como o sotaque de Rabo-de-Peixe... não é obrigatório falarmos todos da mesma maneira para comunicarmos. Outra coisa, é termos um padrão escrito, para não haver dúvidas na comunicação com os outros. O Brasil tem uma situação linguística muito diferente da nossa. A norma brasileira, na verdade, até é muito próxima da nossa. As regras gramaticais do português do Brasil têm diferenças mínimas, mesmo nas coisas que ouvimos todos os brasileiros a dizer. É o caso de “te amo”, onde a gramática do Brasil diz que o “te” é a seguir ao verbo.Ninguém cumpre, mas é a norma.Se imaginarmos que uma língua é uma pirâmide, onde temos os usos mais formais em cima e os mais populares e mais variados em baixo, veremos que há menos variação no topo e muito mais na base. Nas pirâmides de Portugal e do Brasil, a parte de cima está quase ligada e quase sobreposta. Há diferenças, mas são muito poucas. Mas, na gramática usada no português de rua do Brasil, a distância é muito grande em relação à nossa. Ainda é a mesma língua? Se olharmos para o aspecto formal inscrito nas gramáticas, não há dúvida de que é a mesma língua. O que se passa, no fundo, é que os brasileiros“falam duas línguas”: a da escola, da televisão, a dos jornais também, e da rua, do dia-a-dia, que é muito diferente, e têm uma gramática já relativamente estável. É uma situação igual à da Suíça,que tem a mesma questão com o alemão. Há o padrão, igual ao da Alemanha, ensinado nas escolas e usado na televisão, mas, na rua, há o suíço-alemão que é muito, muito diferente. No caso brasileiro, não há uma situação tão pacífica quanto a da Suíça. Há uma grande pressão para que as pessoas aprendam a norma do português, só que, como no quotidiano e na família, a língua que falam é muito diferente, o esforço é muito grande. Muito maior do que em Portugal. Embora isto seja simplificar muito a questão, há alguns linguistas brasileiros, muitas vezes associados à esquerda, que defendem, que o português do Brasil deveria ser considerado uma língua autónoma e a norma do Brasil deve ser alterada. No fundo, seria oficializar essa outra língua que os brasileiros têm na cabeça. Depois, há o outro lado, em geral mais conservador, mais de direita, que considera que se deve manter o padrão próximo do português e que não se deve separar a língua, nem considerar que é uma língua própria. Dever-se-ia, levar a que o sistema de educação ensine o padrão a toda a gente. Na minha opinião, no Brasil, o português, ainda durante muito tempo, vai manter-se, oficialmente, como a mesma língua, por inércia e por uma razão particular: o lado africano. Como os países africanos são independentes há relativamente pouco tempo, estão ainda a desenvolver uma nova norma do português. A norma que, hoje, se aprende na escola é o português europeu, os livros da escola são iguais aos nossos, contudo, os africanos também têm tendência para desenvolver, com a utilização de algum vocabulário das línguas locais, a sua norma e Angola aproveitou, de forma bastante inteligente, o Acordo Ortográfico (AO) para a criar à força. No fundo, Angola - e Moçambique - recusou o AO, criado apenas pelo Brasil e Portugal, e, neste momento,criaram-se três ortografias para o Português: a ortografia angolana/moçambicana, que é a portuguesa antiga, a “nova portuguesa” que não é, mesmo após o AO, igual à do Brasil, e a brasileira. Angola também exige uma reforma do AO.
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