Editorial

Quando o vento voltar

30 jul 2026 09:00

Reconstruir não é o mesmo que adaptar o território. Repor o que existia, nos mesmos moldes e nos mesmos lugares, é garantir que a factura se repete

Seis meses depois de a tempestade Kristin ter varrido a região, a pergunta impõe-se: estamos recuperados? Ou, mais exactamente, sentimo-nos recuperados?

O presidente do Banco Português de Fomento (BPF), Gonçalo Regalado, em entrevista nesta edição, dá a medida do golpe.

Na noite de , perderam-se 5.300 milhões de euros, quase 2% do Produto Interno Bruto nacional.

Metade dos 1.900 milhões candidatados a apoio em todo o País concentra-se aqui, o território mais atingido.

Números que ajudam a explicar por que razão ainda há quem estremeça quando ouve o vento soprar mais forte.

Seis meses e muitas promessas depois, temos de separar o trabalho de reacção à catástrofe, rico em dificuldades por escassez de meios humanos, de equipamento e de dinheiro, mas outra coisa, bem diferente, é a preparação para o que poderá vir a seguir.

Aí, os planos de mitigação das alterações climáticas continuam longe do foco, remando contra a maré.

A dúvida que se coloca não é já “se” as alterações climáticas são reversíveis, mas se estamos a preparar-nos para as enfrentar.

Se, no próximo Inverno, houver outra Kristin, o que mudará em relação a Janeiro? Reconstruir não é o mesmo que adaptar o território.

Repor o que existia, nos mesmos moldes e nos mesmos lugares, é garantir que a factura se repete.

Há, porém, uma lição que não vem em relatório algum. Nos dias em que o caos era maior, foram os cidadãos, os vizinhos, as associações e os voluntários que sustentaram a resposta, muito antes de a máquina pública chegar.

E não chegou a todo o lado. Nas zonas mais periféricas o apoio demorou, e há quem continue à espera, desencaminhado entre seguros e seguradoras.

Leia mais: Cinco meses após Kristin, bombeiros voluntários continuam sem apoio

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Voltando à entrevista a Gonçalo Regalado, o presidente do BPF leva essa lição mais longe e transforma-a em desafio. “Deixámos de ser concorrentes para passarmos a ser vizinhos”, diz, ao recordar o que viu na região em Fevereiro e Março.

Pede agora aos empresários das PME locais que façam no mercado o que fizeram naqueles primeiros tempos após a tempestade: juntar-se, ganhar escala, apresentar-se em conjunto a encomendas que nenhum consegue servir sozinho. Cinco ou seis firmas da região, cada uma com o seu lote, podem responder a um concurso internacional que a qualquer uma delas, isolada, estaria vedado.

O repto não é novo... Infelizmente, a ausência de resposta também não. Há décadas que se pede ao tecido empresarial da região que troque a concorrência de proximidade pela cooperação de dimensão, e há décadas que a resposta falha.

A Kristin mostrou que somos capazes disso quando não há solução. Falta saber se somos capazes quando a alternativa existe e se preferimos esperar pelo próximo “vendaval” para o descobrir.