Opinião
Profes – para que vos quero?
O nosso sistema educativo confronta-se com novas tendências e mudanças aceleradas e não consegue alinhar-se
1 - O nosso sistema educativo continua a ser uma manta de retalhos: puxa-se de um lado e esgaça no outro. Tem sido assim desde há dezenas de anos e pouco aprendemos.
O nosso sistema educativo confronta-se com novas tendências e mudanças aceleradas e não consegue alinhar-se. Anda sempre “à nora”.
Eu sou de um tempo, quando comecei a trabalhar em meados dos anos 80, em que havia muitos professores em oferta, sobretudo a História, pelo que os primeiros 5/6 anos, tendo cumprido ainda por cima o serviço militar, se passaram na errância entre escolas, por vezes com horários incompletos à espera de uma escola com vínculo.
Sou de um tempo em que foram criadas as licenciaturas em ensino de 3 anos, mais o 4º ano para estágio integrado. Muitos de nós ficámos à espera que o Estado nos possibilitasse fazer “a profissionalização em serviço”. O que aconteceu foi esta indignidade e injustiça de vermos ex- -alunos do secundário passarem-nos à frente na carreira só porque com as suas novas licenciaturas ficavam logo efetivos, com lugar assegurado e a ganhar melhor que nós, os seus ex-professores.
E depois a “licenciatura de Bolonha”: 3 anos de licenciatura e 1 de mestrado. De tal modo que toda uma nova geração de ex-alunos é “mestre”, sem que os outros dezenas de milhares dos seus professores tenham “subido” administrativamente a mestres também, apesar da sua licenciatura de 4 anos. Outra indignidade e injustiça.
E o que dizer de muitos cursos profissionais? Aí recuo até aos primórdios da Democracia: como era prioritário criar licenciados (por contraste com o Estado Novo que entendia o sistema educativo como um funil e as licenciaturas como uma prerrogativa de poucos), deram cabo das escolas industriais e comerciais, sem mais nem menos, desaproveitando o que tinham de bom e com muita qualidade, fazendo tábua rasa de toda uma experiência acumulada.
2 - Enfrentamos a complexa realidade de um mundo e de uma sociedade que mudou e a que a Escola e os professores têm constantemente de se adaptar. Nada de mais, mas por vezes bastante traumático. Como os alunos são sempre outros, também as exigências surgem sempre diferentes.
Parece-me, por vezes, com alguma tristeza, que o que as governações apenas desejam para resolver parte dos problemas da educação até ao 3º ciclo é somente de uma nova geração de professores que tenham a capacidade de estar adaptados aos novos tempos. Isto é: que exerçam sem questionar e que não tenham problemas de consciência em serem cúmplices de um sistema educativo pouco exigente e sempre a ser remendado.
Texto escrito segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico de 1990