Opinião
Pérolas pt.1
A canção permanece suspensa, num tempo indefinido, como uma memória que insiste em regressar sem nunca se revelar
A música, como se sabe, ajuda a salvar-nos. Pelo menos a alma. Duas das canções que me resgataram nas últimas devastadoras semanas, foram “Henry”, dos britânicos Pale Saints, e “The Well”, dos norte-americanos Tarnation, ambas editadas nos anos 90 com selo da 4AD. “Henry” não é uma canção no sentido clássico; é mais um estado de espírito em forma de um épico que supera os dez minutos de duração.
Integrado em “Slow Buildings” (1994), o terceiro e derradeiro álbum que a banda de Leeds lançou, o tema existe num território onde as palavras perdem nitidez e onde as guitarras se erguem como névoa, espessas, circulares, sempre em movimento, enquanto o baixo pulsa com uma melancolia discreta e a bateria avança contida, quase com pudor.
A voz surge distante, soterrada na própria música, como se viesse de um lugar interior, mais lembrança do que presença. Nada é frontal, tudo é fantasmático. “Henry” nunca se define. É um nome, um eco, uma ausência. A canção permanece suspensa, num tempo indefinido, como uma memória que insiste em regressar sem nunca se revelar.
É nesse espaço de indefinição que reside a sua força, materializada num shoegaze na sua forma mais pura de transformar ruído em intimidade e feedback em espasmos de beleza em bruto, por lapidar.
Já “The Well” oferece-nos seis minutos e seis segundos de puro deleite. Seis minutos e seis segundos onde somos agraciados pela dádiva de uma canção perfeita, lenta, longa, triste, perfeita, magistral, paradoxalmente despida, perfeita.
Uma canção que nos leva aos desertos do coração da América, que nos atira contra as vedações que separam o gado da liberdade, que nos faculta a sombra do sol abrasador dos dias em chamas. Lançada no álbum “Gentle Creatures” em 1995, “The Well” é uma das faixas que melhor representa a identidade sonora dos Tarnation e onde Paula Frazer, líder e mentora da banda, nos mostra todo o potencial do seu incrível instrumento: a voz.
A toada country gótica desta canção alinha-a, na perfeição, com o universo estético que a banda abraçou durante a sua existência e é, indiscutivelmente, um exemplo perfeito de uma canção perfeita, tão perfeita quanto uma canção perfeita pode ser.