Opinião

O privilégio de receber 159,47 euros por mês

9 abr 2026 09:15

Não chega para arrendar um quarto, não chega para a alimentação de um mês, não chega para a ilusão de que o sistema protege quem mais precisa

O Rendimento Social de Inserção (RSI) faz, por estes dias, 30 anos de existência.

Pesa 1% no orçamento da Segurança Social e pode parecer uma percentagem irrisória, apesar de, para quem o recebe, poder significar a diferença entre a construção de uma dignidade renovada e a queda no abismo.

Esta semana, explicamos em que consiste o antigo "rendimento mínimo garantido", com o exemplo de José Conde que foi beneficiário e que, com a ajuda desta prestação, refez a vida.

Trabalhou a vida inteira e perdeu tudo. Viu a casa arder e teve de recomeçar do zero. Arrumou carros e trabalhou na construção civil até que, em desespero, pediu orientação à associação InPulsar, de Leiria, onde encontrou quem o ajudasse a reerguer.

Ou, usando a expressão da moda: a ser "resiliente".

Durante quatro anos, o RSI foi a escora na reconstrução da vida de José, que tirou um curso de jardinagem e, hoje, com 66 anos, é cantoneiro na Câmara Municipal de Leiria.

A vida continua dura, mas o subsídio que alguns tanto criticam, por entenderem que entreajuda e humanidade são palavras vazias para esquecer após bater-se com a mão no peito na missa, fez a diferença no seu caso.

A referência do RSI é de 247 euros mensais e pode ser inferior, pois depende do tamanho do agregado familiar.

Com o número de beneficiários a diminuir desde 2022 no distrito, o valor médio deste contributo na região alargada de Leiria é de 159,47 euros por pessoa.

Não chega para arrendar um quarto, não chega para a alimentação de um mês, não chega para a ilusão de que o sistema protege quem mais precisa, mas chega para ser usado como sinónimo de preguiça e de privilégio injusto.

Bastaria, contudo, algum bom senso e dois minutos de pesquisa fora das redes sociais para perceber, como diz o sociólogo Paulo Teixeira, escutado pelo JORNAL DE LEIRIA, "que quem menos tem é quem é mais controlado".

O RSI, sublinha por seu turno a responsável da InPulsar, Lisete Cordeiro, é das medidas "mais fiscalizadas" do sistema de segurança social português, e todos os números e estudos indicam que quem abusa não é a norma, mas quem precisa é a regra.

O grau de evolução de uma sociedade mede-se pelo apoio aos seus mais frágeis.

Um 1% do orçamento da Segurança Social é mais do que uma escora numa vida, é a diferença entre a indigência e a "resiliência".