Editorial
Ponto final
Sinto que cada linha escrita teve um propósito, cada decisão um sentido, cada gesto uma razão maior
Tudo tem um princípio e um fim. E após difícil mas ponderada decisão, é chegado o momento em que a página se completa. Não por falta de tinta, mas porque a história, esta minha história, encontrou o seu derradeiro parágrafo. Este é último editorial que escrevo no JORNAL DE LEIRIA. Cesso as minhas funções de direcção e coloco um ponto final na carreira. Mas escrevo estas linhas com a serenidade de quem olha para trás e reconhece, com gratidão, a travessia que o jornalismo me permitiu fazer.
Foram mais de três décadas de entrega a uma missão que me ensinou a ver melhor, a ouvir com mais atenção e a compreender que a verdade raramente está no imediato. O jornalismo acolheu-me jovem, inquieto, e fez de mim alguém mais completo. Pelas mãos generosas das pessoas que me ensinaram, ao lado das que comigo trabalharam, das que comigo colaboraram, das que comigo se cruzaram, aprendi sempre um pouco mais.
Nestes últimos cinco anos, com a confiança da administração do Grupo Movicortes, em particular da Catarina Vieira, pude continuar a lutar pelo mesmo ideal que me fez abraçar esta profissão. A todos, deixo aqui o meu apreço e o meu muito obrigado.
Sempre procurei exercer as minhas funções com paixão, ética, responsabilidade e atenção aos valores que dão dignidade ao ser humano e ao jornalismo, sobretudo o jornalismo de proximidade. Nunca me movi por interesses que não fossem os do público, do rigor, da pluralidade, da liberdade de expressão e da democracia. E se por vezes o caminho foi enviezado, se o confronto com o ruído ou com a pressa ameaçou desfocar o essencial, procurei manter sempre o compromisso de informar com verdade e de boa fé.
Agora, ao despedir-me da inquietude diária pela descoberta de uma boa história ou uma grande manchete, levo comigo um misto de saudade antecipada e sentimento de missão cumprida. Há um desafio novo à minha espera, e eu acolho-o sem medo, como sempre. Porque, ao colocar este ponto final, sinto que cada linha escrita teve um propósito, cada decisão um sentido, cada gesto uma razão maior.
Não sei o que me espera na página seguinte, mas sei o que deixo nesta: o melhor de mim.