Opinião

O homem e a ratazana

19 fev 2026 08:01

Perante este céu que nos caiu em cima e tudo arrastou em volta, o nosso presidente da Câmara assumiu-se como um líder

É nos momentos em que a vida nos confronta com a catástrofe que rompe a parábola dos dias, que se pode observar a distinção entre o Homem-maiúsculo que se agiganta para além das suas vulnerabilidades e a ratazana que aproveita o caos para sair do esgoto e conspurcar o outro. De um e outro estamos a ter exemplos recentes.

Gente anónima que muito ou tudo perdeu, outros a quem nada foi pedido, mas sentiram o imperativo de dar e estar presentes e solidários, demonstraram compaixão e acudiram para garantir que a dignidade devida ao ser humano não se tinha perdido entre os ventos que nos destruíram.

Anónimos e desconhecidos acorreram para ajudar no tão-pouco de que se sentiam capazes, contudo fortalecidos pelo carácter que distingue os que sabem haver sempre alguém que está em pior condição. Evidências a merecer louvor também as houve. Exemplos de liderança perante a catástrofe.

Algumas decisões de gestão quotidiana da nossa autarquia são justamente alvo da crítica pública, tão necessária ao garante e exercício da democracia. Posições que nos embaraçam e cujo objetivo e missão nos permitimos discordar abertamente.

Contudo, perante este céu que nos caiu em cima e tudo arrastou em volta, o nosso presidente da Câmara assumiu-se como um líder: chamou a si a responsabilidade de cuidar do imediato dos seus munícipes; escutou e fez-se rodear de quem, pelo saber técnico, poderia ter soluções para os mil e um problemas a resolver; deu o exemplo por cada momento em que foi solicitado.

Agigantou-se nas reivindicações exigidas a um poder excessivamente centralizado e que impede às estruturas regionais e locais agir em conformidade e no imediato com as populações que deveria ter a obrigação de cuidar. Quiçá, mais tarde e em tempo e local próprio, esta ocorrência nos remeta à reflexão imperiosa sobre a reforma do Estado e à distribuição de competências e meios por quem está efetivamente no seio de cada localidade e região, as conhece como ninguém e se propõe ao exercício do estado social.

Depois vieram os outros, as ratazanas. Saíram rápidas do esgoto mental de que se alimentam. Aproveitadores da desgraça alheia, oportunistas de ocasião, ladrões do essencial a quem dele carece verdadeiramente. Alguns até vieram mascarados de bem-feitores, patéticos e moralmente obscenos. Ao que parece, unidos pelo que verdadeiramente interessa, soubemos sacudi-los para o local que lhes é próprio.

Texto escrito segundo as regras do novo Acordo Ortográfico de 1990