Opinião
Música | Químico, dealer e engenheiro de som
Com o dinheiro que ganhava no mercado clandestino decidiu, para além de financiar os Grateful Dead, atacar um problema que quase toda a gente aceitava como inevitável: porque é que um concerto de rock tinha de soar tão mal?
Augustus Owsley Stanley III pode parecer um nome aristocrático mas, durante muitos anos, foi conhecido apenas como “Bear”.
Fã do psicadelismo e químico autodidata, produziu LSD em escala industrial e foi um dos principais fornecedores de LSD da Califórnia dos anos sessenta.
Vivia permanentemente para lá da legalidade e passou boa parte da vida a fugir do FBI. Só esta história já lhe garantia um excelente argumento para uma série da Netflix. Mas é por outra razão que merece um lugar na história da música.
Com o dinheiro que ganhava no mercado clandestino decidiu, para além de financiar os Grateful Dead, atacar um problema que quase toda a gente aceitava como inevitável: porque é que um concerto de rock tinha de soar tão mal?
Enquanto quase toda a gente queria que os concertos soassem mais alto, Bear, que também era um verdadeiro geek da engenharia de som, queria apenas que soassem melhor.
Até então, quase toda a gente aceitava que volume e qualidade eram incompatíveis. Bear recusou essa ideia e começou a desenhar um sistema onde um concerto pudesse soar tão bem como um disco.
Em vez de misturar todos os instrumentos no mesmo sistema de amplificação, cada um passou a ter o seu próprio percurso de sinal, os seus próprios amplificadores e as suas próprias colunas. O baixo deixava de esmagar as guitarras. A voz deixava de lutar por espaço. Um concerto podia finalmente aproximar-se da fidelidade de um bom sistema hi-fi.
O resultado foi a Wall of Sound, um sistema monumental com quase seiscentas colunas e cerca de setenta e cinco toneladas de equipamento. Mas a verdadeira revolução não estava no tamanho. Estava nas ideias.
Para tornar aquele sistema possível, Bear desenvolveu microfones de bobina dupla que praticamente eliminavam o feedback.
Faziam-no através de um princípio de cancelamento de sinal que antecipa algumas das tecnologias de redução de ruído que serviram de base ao que hoje se utiliza.
Desenvolveu também um sistema inovador de monitorização de palco, permitindo que, pela primeira vez, os músicos se ouvissem claramente durante um concerto, algo que hoje parece banal mas que então era praticamente impossível.
E passou a gravar muitos concertos diretamente da mesa de mistura em estéreo, preservando atuações históricas que deram origem aos extraordinários Bear's Sonic Journals, onde sobreviveram concertos de Miles Davis, Johnny Cash, Janis Joplin e tantos outros.
A Wall of Sound acabou por desaparecer. Não porque tivesse falhado. Mas porque era gigantesca. Pesava cerca de setenta e cinco toneladas e exigia uma enorme equipa de montagem e uma frota de camiões.
O curioso é que nunca desapareceu verdadeiramente. Desmultiplicou-se em dezenas de soluções técnicas que hoje damos por adquiridas. A separação dos diferentes instrumentos, a redução do feedback, a monitorização em palco e a obsessão pela fidelidade sonora continuam omnipresentes na música ao vivo.
Às vezes a história da música muda por causa de um compositor. Outras vezes muda porque um químico, dealer e engenheiro de som decidiu que o público merecia ouvir melhor.