Opinião

Letras | Jovem instruída procura companhia inteligente e culta

17 jul 2026 10:51

Joana Bértholo — que escreve tão bem que até aleija — deu-me boleia no seu Augusta B. ou as Jovens Instruídas 80 Anos Depois

O livro deste mês é daqueles que se sorvem de um trago, como um shot de uma bebida intensa. Pode inebriar como o teor alcoólico de uma boa aguardente. Digo-o eu, que de álcool nada entendo, mas aprecio muito a palavra xiripiti.

Ora lá fui eu à feira do livro, a Lisboa, num ritual que gosto de repetir anualmente. Levava um plafond financeiro, porque, bem se sabe, é muito fácil perdermo-nos em feiras. E as do livro estão cheias de tentações. Tinha alguns títulos na mira e sucumbi às irresistíveis promoções. Mochila cheia e pesada para regressar na viagem de Expresso para Leiria. Qual criança com brinquedos novos, peguei logo num livro novinho em folha.

Foi a Joana Bértholo que me acompanhou, numa concentrada novela de 97 páginas. Joana já me tinha agarrado com o seu belíssimo A História de Roma; agora, esta premiada autora— que escreve tão bem que até aleija — deu-me boleia no seu Augusta B. ou as Jovens Instruídas 80 Anos Depois.

O livro dá-nos a conhecer duas jovens com 22 anos: Raquel, ávida leitora, e Augusta uma “expedita na abordagem virtual”. Foi com a mesma idade que Augustina Bessa-Luís publicou um anúncio no jornal Primeiro de Janeiro, apresentando-se como “jovem instruída” e desejando corresponder-se com uma pessoa “inteligente e culta”. O teor do texto, surpreendentemente progressista para uma jovem mulher na década de 1940, gerou cerca de 30 cartas de resposta, entre elas a daquele que viria a ser o marido da escritora.

Passados 80 anos, Augusta, farta das frustrações e da frivolidade das dating apps, decide fazer o mesmo: publicar um anúncio num jornal. Depara-se, contudo, com sérias dificuldades para o ver aceite, já que o texto é sucessivamente rejeitado por não cumprir os requisitos editoriais. O anúncio acabaria por ser publicado no Correio da Manhã, junto à divulgação de serviços de carácter mais erótico.

Esta história foi criada em 2023, no Festival Correntes d’Escritas, quando Joana Bértholo foi desafiada a escrever sobre a Póvoa de Varzim de Agustina Bessa-Luís. Segundo a autora, as conversas sobre relações amorosas e sobre conhecer pessoas tornaram-se cada vez mais ligadas a aplicações como o Tinder ou o Bumble e às dinâmicas de aproximação e afastamento que estas promovem. O mesmo acontece com as protagonistas desta história.