Opinião
Kristin e a ilusão da normalidade
Continuamos a tratar estes episódios como fatalidades pontuais, quando na realidade expõem uma vulnerabilidade estrutural
A tempestade Kristin bateu-nos à porta. Aliás, arrancou-nos as portas, expôs a fragilidade das casas e das empresas, invadiu-nos a alma e colocou-nos perante uma prova para a qual não estávamos preparados. Quando falham a eletricidade, a água, a rede de comunicações e o acesso imediato à informação, percebemos que a normalidade contemporânea assenta em alicerces muito mais frágeis do que julgávamos. De repente, cada decisão deixa de ser mediada por aplicações, tutoriais ou instruções externas e passa a ser concreta, física, imediata.
É nesses momentos que se revela, de forma dura e inequívoca, a nossa dependência quase absoluta do telemóvel, da tecnologia e da resposta instantânea. Quando tudo isso falha, cada pessoa fica, literalmente, entregue a si própria. E muitos não sabem como agir. Não sabem como proteger uma habitação, improvisar soluções provisórias, gerir infiltrações, garantir segurança mínima ou organizar recursos escassos durante horas ou dias sem energia, comunicações ou apoio externo.
Há muito que somos alertados para o aumento da frequência e intensidade dos fenómenos atmosféricos adversos. A questão já não é a exceção, é a recorrência. No entanto, continuamos a tratar estes episódios como fatalidades pontuais, quando na realidade expõem uma vulnerabilidade estrutural: a ausência de competências básicas de sobrevivência cívica numa parte significativa da população. Não se trata de alarmismo, nem de preparar cenários extremos, mas de reconhecer que viver em sociedade implica saber agir quando os sistemas falham.
Em países como a Finlândia ou a Suécia, esta fragilidade foi reconhecida há décadas. O sistema educativo integra disciplinas orientadas para competências práticas de vida, autonomia, segurança doméstica, primeiros socorros, gestão de riscos e responsabilidade cívica em contextos adversos. Não para formar técnicos, mas para formar cidadãos capazes de decidir e agir quando o Estado, os serviços ou a tecnologia não conseguem responder de imediato.
Em Portugal, estas competências surgem de forma dispersa e residual. Falta uma abordagem estruturada, contínua e obrigatória que prepare as pessoas para agir, decidir e cooperar em contexto de crise. Falta uma disciplina que una cidadania prática, resiliência, pensamento estratégico e competências manuais básicas. A tempestade Kristin mostrou que a vulnerabilidade não é apenas climática. É também formativa.
A verdadeira modernidade não se mede apenas pela sofisticação tecnológica, mas pela capacidade de agir quando ela deixa de funcionar. Preparar cidadãos para sobreviver, proteger e decidir em momentos críticos não é um retrocesso. É uma forma madura de progresso. Ignorar esta necessidade é continuar a acreditar que o sistema nunca falha. E a Kristin mostrou-nos, de forma clara, que falha.
Texto escrito segundo as regras do novo Acordo Ortográfico de 1990