Opinião
Há mais mundo para além do nosso
Viajar expõe ainda a criança a novos contextos comunicativos, a novo vocabulário e por vezes a uma nova língua
2026 já cá anda há quinze dias e, como em anos anteriores, não vou correr atrás de resoluções de Ano Novo.
A incerteza é uma garantia e, a esta altura do campeonato, já só quero saúde para toda a gente. O resto é conversa.
Ainda assim, há coisas que o volver do ano nos leva a pensar, mesmo sem contarmos com isso.
Este ano virei a página no país vizinho. Não foi a primeira vez que saí de Portugal nesta altura, mas na companhia de uma criança de 5 anos foi a primeira vez.
Durante sete dias, o pequenote esteve exposto à vida como ela é longe das suas rotinas e contextos, e dei comigo a pensar no poder que as viagens têm nos miúdos, desde que feitas com adultos consistentes, previsíveis e responsivos.
Sabe-se que os primeiros seis anos de vida, graças ao elevado grau de plasticidade neuronal, são um período particularmente sensível do desenvolvimento.
Isto quer dizer que o cérebro se organiza e se adapta, modificando as suas ligações em resposta às experiências e ao ambiente.
É a qualidade das experiências vividas que faz a diferença, daí que viajar me tenha parecido uma verdadeira janela de oportunidade para desenvolver, in loco, competências que dificilmente encontrariam expressão dentro de quatro paredes.
A regulação emocional, as competências sociais, a flexibilidade ou a capacidade de inibição aprendem-se em situações reais, quando é preciso esperar, ajustar expetativas e lidar com pequenas frustrações.
Viajar expõe ainda a criança a novos contextos comunicativos, a novo vocabulário e por vezes a uma nova língua.
Mostra outras formas de estar e obriga a criança a sair do centro, levando-a a perceber que há mais mundo para além do seu.
E mesmo que de forma implícita, viajar mostra à criança que o mundo é seguro e que a novidade não mete medo, merecendo ser explorada.
Viajar ajuda a normalizar a diferença e alimenta a curiosidade. E talvez, hoje mais do que nunca, importa lembrar que viver passa por aprender a estar confortável no meio do que não é igual a nós.