Opinião
De pé com as mãos | o mar procura os restos
a casa não serve para nada, hoje. e no entanto continua lá. por teimosia. não está sozinha, está no meio do seu lugar. posto de vigia de nenhum naufrágio. a doçura, ali, não se fixa, estaca
nota de abertura: estes textos são o registo de uma descida. partem da fuzeta, desse lugar onde a ria formosa se suspende em estacas e o silêncio ganha a espessura da cal, e avançam até ao osso da matéria. entre a “casa amarela” salva-vidas, o corpo que funde o azul e o bicho do vento que a fome traz à calçada, o que aqui se publica é uma geografia da insistência. a água que não avança — pesa. e a rua, demasiado branca, que afinal nos mostra o avesso do voo.
I
há casas que não se habitam. habitam-nos. a da fuzeta é uma delas. depois da rua, depois do mercado, da ria, onde o chão deixa de ser sólido, há um ponto onde começa uma terra de água sobre estacas erguidas sobre o nada, sem ponte nem atalho, há um amarelo suspenso que traz a maré num vagar lento.
só isto. arde um amarelo exacto – como um fruto ou um voto exposto à luz. quatro estacas entre o céu e lodo. côr de vento, auto de ocorrência na antiga casa salva-vidas, que guardou o regresso dos homens e o nome dos que o mar levou.
depois o resto: côr de gema batida com brilho, de enxofre, de cera morna. uma paisagem de cinzentos – desses cinzentos que raul brandão anotou nos “pescadores”, sem adjectivos, porque a fome não precisa deles – aquele amarelo destoa. e porque destoa, permanece e espera, para nos indicar a habitar o mundo sem peso, como os barcos.
quando a luz do meio-dia cai direita, a prumo, o amarelo arde como sal do tempo, febre de um sol guardado. côr de verão de infância do algarve. a casa não serve para nada, hoje. e no entanto continua lá. por teimosia. não está sozinha, está no meio do seu lugar. posto de vigia de nenhum naufrágio. a doçura, ali, não se fixa, estaca.
olhamos e, sem querer, volta-nos a frase que proust deixa, já no fim de vida, já no último livro da recherche, como quem arruma papéis: les vrais paradis sont les paradis qu’on a perdus. não os perdemos. nunca os tivemos.
para os outros, é uma ruína com bom pôr-do-sol. mas a dobradiça é a pálpebra de água da ria, como quem fecha a porta devagar, é o único sítio da fuzeta onde o silêncio tem côr.
II
A LUZ a demorar-se.
suspensa, a ir ao fundo
a tornar-se branca.
os barcos na maré baixa
ancoram o cansaço.
recolhem os remos
a afinar o verso
a fazer morada no sossego.
respiram devagar até
o mar os alcançar.
O mar persiste porque
a memória ainda o chama.
férias. a mesa insiste.
quieta. a trabalhar.
um lápis a meio gesto,
linhas por atar.
a ria faz o seu trabalho:
desarruma a luz.
o vento põe em ordem os papéis:
espalha-os ao ar.
III
Da RIA, o aberto.
o lodo pensa.
o ser da água.
no seu não-ser do espelho.
é um silêncio que se empola activo
entre o sal e o esquecimento.
o limo. o limbo. o lido.
estamos aqui. e este aqui é casa
de lama e claridade.
onde o mar aprende o seu nome.
o barco - demora de madeira -
o remanso - repouso do remo -
a baixura - labor do vazio.
iluminar-nos ilumina
outros a iluminar-se.
na ria.
onde a água não avança. insiste. pesa.

IV
HÚMIDA, a ria abre-se em verde.
anterior à água.
posterior a todo olhar.
salobra.
luz resoluta.
légamo em odor, já ideia.
sal da forma.
onde a vasa se pensa
ou
o lodo que aprende raiz
ou
erva que segura a água.
o tempo em côr.
a côr em imanência.
ser em falta
a exceder.
e a ria subsiste -
prova do impossível.
assim a côr cheira.
V
O AZUL contido recolhe na sua hora extrema
um corpo de mulher.
água de régua, de azulejo e cloro,
faz-se outra em contacto com a pele.
o rectângulo recorda o mar.
o cloro recorda o sal
como voz de cetim rasgado a mel.
a bordar-se em cintilação cansada,
a ria dormita na maré-cheia.
enquanto tudo, em cima, transborda.
Supina face oferecida ao céu,
de dorso entregue ao que pisca em prata,
os cabelos claros em dispersão lenta,
fundam o azul.
o corpo infunde extensão à água.
a água infunde eternidade ao corpo.
e no intervalo, como capela erguida
entre duas marés,
o eterno aprende, por um instante, a ter
margens.
limite e travessia
num único avesso:
um só vinco no pano.
forma entregue à forma maior.
água no corpo,
corpo na água,
o mesmo tecido aceso, vasto,
onde toda a forma se cumpre
dissolvida, desatada,
inteira.
VI
A FAZER-SE À GEMA, esbatida de ovo de garça.
polpa pulida em água turva,
manteiga fria batida com soro de ria,
cera rendida em leite grosso.
de modo maciço se fez,
florão no lodo,
lírio de febre amarela,
caixilho aberto na água,
pétala em resina.
acácia-de-espigas
que costura a duna com raíz,
folha em faca fincada na vasa,
nó onde a água se morde e se ata.
dentro o barco,
bicho suspenso em silêncio de cão,
útero de resgate,
ventre para parir homens.
dentro,
o abismo.
garganta que se afoga
e garganta que se acode.
uma corda.
um sangue.
uma boca de noite.
brasa sombria sobre a água,
baliza clara.
flor que a ria inventou
para o afogado, largar
os olhos.
VII
antes de haver mulher,
há uma luz que a
inventa.
não está deitada.
está deposta,
como se a tarde a tivesse
largado ali
e se esquecesse
no osso morno
da madeira.
uma mão de esquadro
mede ainda a sede
da paisagem –
mas já não alcança
este joelho aceso
à contra-luz da ria.
perna sobre perna.
a coxa entreabre-se,
faz da madeira outro corpo,
um corpo que cede e sua.
o livro tombou-lhe sobre o ventre,
a lombada morna entre
o monte e a dobra.
não lê.
deixa-se ler,
deixa-se abrir
devagar pela tarde.

VIII
E QUANDO pensavas que era só um pouco
tarde,
que era só o mundo a apagar-se em
linho,
eis que a luz se levanta.
levanta-se sobre a ria.
a ria entreabre-se, com o lábio de água rendida, salgada e lenta.
a lua invade-a. toda dentro.
erecta - possui-a.
e a ria geme baixa, toda oiro líquido,
toda seio, toda aceitando a brasa na boca
funda
até ficar, depois, cega. imensa.
saciada.

IX
ENCHE.
o lodo amolece,
deixa de ser espinha.
duas colheres de cal
esquecidas à calma.
um estalo aqui,
outro ali.
a madeira a lembra-se do nó.
desfazem-se devagar,
com o tempo todo.
há nisto
a demora do pão.
água morna,
pouco sal,
tempo para levedar.
o branco cresce para dentro.
assim crescem os cascos na água
que volta.
vão.
agulhas claras a coserem
o céu à ria.
colheres lentas a mexerem
um caldo de luz.
cada uma
deixa uma bainha que custa a desfazer.
enche.
os cascos curvos
aprumam-se.
não há pressa.
é o tempo do pão,
água morna e espera,
massa que sobe
sem fazer barulho.
o azul das amuradas,
desmaiado,
encontra por baixo
o seu gémeo de água.
o encarnado das bóias
acende, manso,
brasa tapada que volta a ser lume.
como quem puxa uma cortina
para não acordar ninguém.
a ria volta.
o lodo deixa de ser chão.
duas colheres de cal
lembram-se do berço.
há no boiar a paciência da massa.
crescida ao sol,
tempo para levedar.
o branco incha devagar,
seguro.
para a barra,
cruzam-se,
pão branco posto a andar
sobre vidro toldado,
levam a tarde equilibrada
em concha,
sem entornar.
X
A RUA é branca.
demasiado branca para ser rua.
é cal, é osso de casa.
são cinco. seis, se contares a que ficou
atrás, mais afastada.
o chão prende-lhes os pés com sobras,
a aprenderem a ser pedra,
outras no alto, a rasgar o azul
com a tesoura fria do voo.
o que segura o céu para não cair na rua?
perguntam as asas.
na pedra miúda da calçada,
o bando de gaivotas insiste.
não pousa. resiste.
garra fria, bico a cheirar o grão no chão,
a asa ainda húmida da altura.
é luz pousada no lajedo.
é o silêncio que tem asas.
não são majestosas.
são domésticas, quase galinhas de sal,
donas da rua à hora que não passa ninguém.
e é isso que dói:
estarem tão pouco à vontade no chão,
como se o céu fosse apenas uma história
que ouviram contar.
não é o homem que vai ao mar apanhar o peixe,
é o mar que vem à rua procurar os restos.
não é a gaivota fora da água, é ria que
entrou pela rua adentro sem água nenhuma.
não deviam estar aqui.
devia ser ria, devia ser barco, devia ser
ameijoa aberta ao sol.
mas estão aqui no meio da calçada,
entre um vaso de plástico encarnado e uma
grade de peixe vazia.
e no meio de nós, entre o que voa e o que
fica,
a rua mostra:
todo o voo é um regresso adiado,
todo o chão é um voo
que se esqueceu de partir.
umas picam o nada entre as pedras,
outras olham em frente como quem espera
o autocarro,
outra ainda tem o peso do voo nas asas
fechadas,
todas com ar de quem já viu o mar e agora
tem de se contentar com migalhas.
ninguém é livre quando se tem fome, nem a
gaivota.
elas não estão ali por poesia,
estão ali porque alguém deixou o lixo por
fechar,
e a miséria toda vem disso,
de um bicho ladrão do vento ter de aprender a
mendigar do chão.
no fim, resta a calçada e o resto. a ria que entrou pela rua adentro sem água nenhuma não é uma imagem de estio, é a precisão mecânica da sobrevivência. o ciclo fecha-se onde o homem e o bicho dividem a mesma berma, entre o que cresce devagar como o pão e o que se consome na pressa do lixo por fechar. fica o aviso da pedra miúda: tudo o que é livre tem, algures, uma margem que o prende.
Fuzeta. 2026.