Opinião

A ciência e o improviso

28 mar 2026 21:30

O acesso a conteúdo com pouca robustez científica, ainda que apresentado como válido, enviesa e descapitaliza recursos cognitivos, como a memória ou a resolução de problemas.

a propósito do Dia Internacional das Pessoas com Trissomia 21, assinalado a 21 de março, participei numas jornadas dedicadas ao neurodesenvolvimento, área em que trabalho há 20 anos.

Como sempre, o saldo foi positivo, pela oportunidade de aprender com os melhores e por me possibilitar uma atualização teórica. No entanto, estes encontros são-me particularmente especiais por não deixarem esquecer premissas básicas. Coisas simples, mas que se complexificam nos dias de hoje.

Foram discutidos temas atuais, como a presença da IA na nossa vida. Contudo, também se recuou no tempo, e ainda que a evolução da espécie seja um processo natural, há uma herança ancestral que nos tem sustentado: a compaixão e a presença de uma comunidade que nos protege. Relativamente à IA, consensualmente facilitadora de certas tarefas, há que estar alerta: informação não é conhecimento. Interpretar e manter espírito crítico é fundamental. O acesso a conteúdo com pouca robustez científica, ainda que apresentado como válido, enviesa e descapitaliza recursos cognitivos, como a memória ou a resolução de problemas.

Os ecrãs voltaram também a ser assunto pelo perigo que apresentam. Sabe-se que a ansiedade e depressão nos jovens aumentou em virtude da exposição às tecnologias e que se encontram alterações no cérebro infantil, semelhantes às observadas nos comportamentos aditivos, quando a exposição é precoce. Até uma televisão ligada na retaguarda reduz em cerca de 600 palavras por hora a interação linguística, condição que empobrece o sistema linguístico das crianças.

Depois a desatenção, tantas vezes mal compreendida, e com um potencial comprometedor enorme. Depois a matemática, com tendência aos maus desempenhos. Talvez por falta de impregnação precoce desta natureza, talvez por se ignorarem as orientações curriculares para o pré-escolar ou tão somente porque as práticas educativas não se alinham com as da saúde/ neurodesenvolvimento. Falou-se ainda de inclusão, sexualidade e vinculação. Enfim, a ciência a mostrar como fazer e nós a prevaricar.