DEPRESSÃO KRISTIN
Vieira de Leiria e o cenário de desolação que persiste
Passou um mês desde que a Kristin irrompeu pela Praia da Vieira deixando um rasto de destruição pela região. Entre os sinais da tragédia, que persistem, grassam histórias de quem se recusa a baixar os braços
Volvidas quatro semanas desde que a depressão Kristin irrompeu pela Praia da Vieira, continua muito vivo o quadro de destruição que avassalou a localidade e a freguesia.
As ruas estão livres de entulho e de árvores tombadas, mas continuam destruídos os bares da marginal, assim como praticamente todos os restaurantes. São muitas as habitações destelhadas, onde os plásticos são penso-rápido para uma reconstrução que chega lenta.
Na vila, as escolas reabriram, apesar das mazelas nas instalações. A energia eléctrica fraqueja e as comunicações vão e vêm, para desespero das indústrias que têm urgência em retomar a produção plena.
Depois da tristeza, a revolta
Ricardo Costa é proprietário da esplanada Âncora, bar de praia onde a passagem da Kristin representou “perda total” do negócio. Entre as instalações, electrodomésticos e mercadoria, Ricardo estima prejuízos de 350 mil euros, que o seguro não vai cobrir na íntegra. “A ajuda aqui foi zero”, conta o comerciante, enquanto retira entulho e areia, que nos últimos dias ali se acumulou. À excepção dos escuteiros, vindos de fora, diz que ninguém apareceu. “Nem do Exército, nem do Governo.”
“Dizem que foi o turismo que catapultou o País. E agora o que nos dão?”, nota o empresário, indignado com as contas de telecomunicações que continuam a chegar e com os apoios do Estado que não dão para o gasto. “Se estamos a facturar zero, como pago 20% dos salários às pessoas que vão para lay off?”, interroga Ricardo, que tem uma equipa de oito funcionários.
Depois dos incêndios, do Leslie e da Kristin, é difícil encontrar quem queira segurar estabelecimentos localizados numa localidade onde há tanto risco, partilha Sandra Alves, que explora o café Boavista, na marginal da praia, há mais de 20 anos.
Mesmo com danos no telhado, arcas frigoríficas e máquina registadora perdidas, a comerciante viu-se obrigada a pagar a Segurança Social, referente a Janeiro. “E até Abril, vou ter de pagar o IVA.” Com estragos também em casa, onde os prejuízos são de 11 mil euros, “nem sei a que lado hei-de socorrer”. “Se não fosse o ordenado do meu marido, este café já tinha fechado”, assegura.
“Verão não está comprometido”
Os prejuízos chegam ao milhão de euros, entre estragos no Hotel Cristal Vieira & Spa, no Hotel Cristal Praia Resort & Spa e nas piscinas, contabiliza o administrador, Francisco Almeida Gomes, adiantando que os seguros hão-de cobrir os danos.
“Mas quase todos os dias se verifica uma nova avaria, um vidro partido ou um elevador que fica inoperativo por força de tanta areia”, nota o empresário. Apesar deste cenário, “o Verão não está comprometido”, garante Almeida Gomes, que tem contado com o apoio dos funcionários nesta tarefa herculeana de retomar actividade.
Mais de 80% das limpezas já estão feitas e, como é muito aquilo que tem de ser reconstruído, a opção passa por estabelecer prioridades. Os hotéis vão reabrir no final de Março. Já os painéis solares, que ficaram destruídos, terão de ficar para depois.
Tal como os outros comerciantes, também Almeida Gomes está revoltado com a prestação dos serviços públicos nesta situação. Não compreende como, apesar do recente apagão, que transtornou o País durante poucas horas, ainda não haja sistemas redundantes para accionar em contextos de catástrofe.
“Estivemos três semanas sem electricidade, três semanas sem comunicação e no início também com corte de água. O Estado tem de sair dos gabinetes e ver o que se passou”, tanto mais que se trata de uma região que muito contribui para o PIB, realça o empresário.
Telhado perdido, chaminés caídas, vidraças, portas e janelas destruídas. Foi assim que Ledo amanheceu dia 28 de Janeiro. Foi pouco o que restou deste restaurante e do alojamento local criado no primeiro piso. “Temos seguro, mas o perito ainda não veio. Arranjámos empreiteiro, mas ainda não teve disponibilidade para trabalhar”, explica o proprietário do estabelecimento. Por isso, à excepção de algumas limpezas, está tudo por fazer.
A realidade desta casa é igual à de tantas outras na Praia da Vieira. “Há três ou quarto restaurantes abertos e talvez uns 20 encerrados. Lojas também”, observa João Ramusga. Os seus cinco funcionários estão em lay off, mas o empresário conta reabrir o espaço em Junho. “Tenho de ser optimista. Não tenho alternativa.”
Em casa, o “azar” também bateu à porta. “Moro na Passagem e metade do meu telhado foi embora”, comenta João.
Produção a menos de meio gás
Na Zona Industrial de Vieira de Leiria, foram várias as indústrias duramente afectadas pela passagem da intempérie. Entre elas, as instalações do Grupo Moldata, dedicado à produção de moldes, onde, várias semanas depois, a produção não vai além dos 40% da sua capacidade.
“Tivemos danos consideráveis nas instalações, que limitam a operação normal, a que se junta a falha de energia”, explica António Gameiro, sócio-gerente.
“Apesar de já ter retomado, a electricidade vai e vem”, obrigando a empresa a manter uma despesa de “3 a 4 mil euros” diários com combustíveis para geradores. “Ainda não temos os prejuízos calculados porque, como tem chovido, ainda não vieram os peritos dos seguros”, expõe o responsável.
Em empresas como estas, com perfil exportador, o problema é que “os clientes cancelam as encomendas e não voltam a confiar. Ficamos fora dos circuitos do mercado”, aponta António.
Os empresários não são gente de baixar os braços, defende o industrial, para quem, tudo o que precisam é que as infra-estruturas não lhes falhem nem como energia nem como comunicações.
Apelo à resiliência
A falha no fornecimento da electricidade estendeu-se por demasiado tempo, considera Álvaro Cardoso, presidente da Junta de Vieira de Leiria, trazendo “grande sofrimento” à população. “Foram precisos mais de 20 dias para que a energia se restabelecesse.”
Mesmo assim, sobretudo à noite, o fornecimento ainda é fraco e as comunicações continuam a falhar prossegue Álvaro Cardoso.
Embora não tenha conseguido acompanhar “casa a casa”, como gostaria, o presidente explica que a prioridade do seu executivo foi, com a ajuda de voluntários, assegurar que não faltavam bens essenciais.
Gradualmente, caminha-se em direcção à normalidade que a situação permite, com as escolas em funcionamento, ainda que em condições provisórias. Duas turmas do 1.º ciclo estão a ter aulas nas instalações da junta, conta o presidente.
“Estamos a prestar apoio técnico na submissão de formulários, para que as pessoas reportem os prejuízos e agora, que São Pedro deu tréguas, começa-se a fazer obra”, prossegue Álvaro Cardoso.
Feliz por voltar a ver gente a aproveitar o fim-de-semana solarengo na Praia da Vieira, o autarca apela à população que continue com “força e resiliência”.