Sociedade

Pedro Pimpão: "O Bodo deste ano somos nós"

24 jul 2026 09:40

O presidente da Câmara de Pombal anuncia que a animação do Bodo deste ano é dos pombalenses. A opção é sintomática: seis meses após a tempestade Kristin, a autarquia gere a recuperação do concelho, com sete milhões já gastos, empresas ainda sem comunicações e os planos para alicerçar o futuro.

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Pedro Pimpão, em dia de arranque das Festas do Bodo
Fotografia: Ricardo Graça
Jacinto Silva Duro

Este ano, as Festas do Bodo abdicam dos nomes nacionais e entregam o palco a 334 pombalenses, sob o lema "Bodo és tu". É uma contenção imposta pelas circunstâncias ou revela algo mais profundo sobre a relação da comunidade com o território depois da tempestade Kristin, de ?

Foi uma opção. O Bodo deste ano somos nós. No contexto de um ano especial onde fomos fortemente atingidos pela tempestade da qual estamos ainda numa fase de recuperação, quisemos destacar o Bodo pela relação que este festejo tem com Pombal e dar-lhe um cunho mais comunitário. Por isso optámos pelo desafio de ter um Bodo que vai valorizar sobretudo os artistas pombalenses e dar a oportunidade de valorizar o que temos de mais importante. E o mais importante no Bodo é a sua tradição e é ser um ponto de convívio entre pombalenses, quer aqueles que cá estão, quer aqueles que estão no estrangeiro ou estão em outros pontos do país e que encontram nesta época do ano o momento ideal para se juntarem às suas famílias. O Bodo é a grande festa da comunidade pombalense.

Seis meses após a tempestade Kristin, em que ponto está a recuperação do concelho?

Neste momento, temos duas preocupações. Uma, são as comunicações, porque ainda continuamos a ter relatos de vários clientes que não têm acesso a comunicações. São empresas e famílias e, portanto, esta situação, para nós, é inadmissível. É caricato que, passados quase seis meses da tempestade, ainda haja empresas sem as comunicações restabelecidas, pelo impacto que a situação tem na própria dinâmica económica do tecido empresarial do concelho e, portanto, isto era algo que já devia estar mais do que resolvido. Depois, temos a questão da floresta. Tem sido um exercício muito exigente todo o trabalho que estamos a fazer neste momento de retirar material lenhoso das vias e dos acessos.

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O senhor presidente fez uma analogia, nas semanas a seguir à tempestade, com os 2.400 quilómetros que distam de Portugal a Berlim, para dizer que essa era a quantidade de quilómetros que era preciso limpar. A que distância estão os serviços de limpeza de "chegar a Berlim"?

Faltarão cerca de 400 quilómetros. Já temos mais de dois mil quilómetros de caminhos florestais principais desobstruídos, mas ainda temos aqui um trabalho grande, nomeadamente também na articulação com os próprios proprietários. Em especial, para se poder desobstruir serventias privadas, isto é, para que os proprietários possam também aceder aos seus prédios e possam eles remover a sua própria lenha caída.

Enquanto presidente da ANMP, tem insistido na necessidade de um despacho que permita aos municípios serem ressarcidos dos investimentos feitos em estradas e equipamentos. Quanto já gastou a Câmara de Pombal do seu próprio orçamento na resposta à tempestade?

Do nosso orçamento, já temos cerca de sete milhões de euros alocados só à recuperação da tempestade. Isto é, investimento já realizado e investimento que estamos a realizar neste momento, à medida que os procedimentos vão avançando. O que é que defendemos? Que haja um despacho por parte do Governo que nos permita perceber que apoios financeiros é que nós vamos ter, efectivamente, para recompensar o trabalho que estamos a fazer. Não só o investimento que já foi feito, mas o investimento que queremos fazer, porque há intervenções que queremos fazer, seja em alguns equipamentos públicos, ou na rede de águas, ou de saneamento, ou noutros tipos de infra-estruturas, que só podemos fazer se soubermos, realmente, que vamos ter esse apoio financeiro. Neste cenário, do que é que precisamos? De um despacho enquadrador que nos diga quais são as despesas elegíveis e a tipologia das despesas elegíveis para cada município em cada uma das áreas, e o montante. Ou seja, o valor que vai ficar adstrito aos municípios nesta fase de recuperação.

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Estes milhões que as autarquias já gastaram vão ter impacto nas operações do quotidiano e na gestão autárquica?

Vai ter e já está a ter. Por exemplo, nesta componente dos eventos, como as Festas do Bodo. Também fizemos uma reprogramação dos eventos, precisamente para diminuir aquilo que é o investimento financeiro, também para poupar algumas das nossas equipas internas, que sofreram uma exigência muito grande no período pós-tempestade, e, naturalmente, diminuímos algumas actividades que tínhamos previstas, alocando essas verbas e previsões para algumas das iniciativas, para os trabalhos de recuperação de infra-estruturas e valências no concelho.

Falando dos 274 milhões prometidos pelo PTRR – Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência, o município submeteu ao Plano de Transformação empreendimentos como a Bacia de Retenção dos Caseirinhos, a Plataforma Logística do Carriço ou o Pólo de Inovação do Politécnico. Destes, quais considera verdadeiramente decisivos para o futuro de Pombal, que garantias tem de financiamento e o que acontece se o tratamento diferenciado que reclama para a região de Leiria não se concretizar?

Para o futuro do concelho, não tenho dúvida alguma de que é o Pólo de Inovação e Conhecimento. Resulta da articulação que temos com a agora recém-criada Universidade de Leiria e Oeste, antigo Politécnico de Leiria, termos em Pombal uma escola de ensino superior que ministre licenciaturas, pós-graduações, mestrados, entre outros graus. Tanto para a universidade como para a nossa região como um todo, é importante que nós — o concelho de Pombal —, na nossa ligação que temos ao Pinhal Interior e na ligação que temos à Zona Sul de Coimbra, possamos ter também uma escola de ensino superior que corresponda também aos desafios que a própria universidade tem de crescimento, da formação regional e nacional. Esse, para mim, é o investimento mais influenciador de Pombal nos próximos anos. Isto está também interligado com um investimento que já está a ser feito e quase concluído, que é a residência universitária da Universidade de Leiria e Oeste, que vai estar pronta em Setembro ou Outubro, onde prevemos também disponibilizar 42 camas para estudantes do ensino superior. Para a região, acredito que vai ser muito importante esse passo.

Já sabe qual será o curso que irá abrir em Pombal?

Isso ainda não sabemos. É um processo que está nas mãos da nova universidade. Neste momento, em Pombal, já temos o Núcleo de Formação do Politécnico de Leiria, que ministra cursos técnicos superiores profissionais, que permitem depois a entrada nas licenciaturas. Além disso, este ano, temos uma boa novidade. A Escola Superior de Tecnologia e Gestão, que era uma das escolas superiores que não estava interligada com o Núcleo de Formação, pela primeira vez, vai ter cursos em Pombal, nomeadamente na área de Mecatrónica e da Tecnologia Automóvel, que são cursos core, para nós, porque estão enquadrados também com a nossa estratégia de ensino profissional, através da Escola Tecnológica e Artística de Pombal. Esta, que foi a primeira escola profissional do País e que lecciona estes cursos de nível profissional, vai ter agora continuidade lectiva ao nível destes cursos técnicos superiores profissionais. Estou convencido que isto vai ser muito importante. Na prática, isto é uma parceria entre a universidade e a escola profissional, para ministrarmos a parte lectiva, no Núcleo de Formação, e a parte prática, no Centro Tecnológico Especializado Industrial, que disponibiliza tecnologia de ponta. Conseguimos, com esta articulação e com esta combinação de vontades, ter estes cursos técnicos profissionais em Pombal, aumentando a oferta do Núcleo de Formação, que depois, no futuro, virá a ter continuidade na futura escola superior.

Qual é a sua leitura do aumento de população no concelho apresentado pelo último relatório do Instituto Nacional de Estatística? É um copo meio cheio ou meio vazio?

É natural que fiquemos sempre satisfeitos quando a população aumenta. Percebemos que o aumento da população, que, no nosso caso, segue a tendência nacional, está muito alicerçada também na imigração. E porquê? Porque a actividade económica, assim, o exige. Os próprios indicadores dizem que o aumento do PIB tem associado, normalmente, o aumento também da população, nomeadamente da população imigrante, que procura e consegue postos de trabalho, e, portanto, aumenta a população no nosso território. Pombal também tem tido uma boa dinâmica económica. Estamos a aumentar o número de empresas, estamos a aumentar o número de exportações e estamos a aumentar aquilo que é a dinâmica das nossas próprias empresas. Temos mesmo mais empresas reconhecidas como PME Excelência, e isso faz com que tenhamos também aqui uma interligação com o aumento da população. Entendo que o aumento da actividade económica leva ao aumento da população, e com um desafio: o desafio de preparar as nossas infra-estruturas, seja na área da saúde, seja na da educação, seja de todas as outras infra-estruturas públicas, para este aumento de população que tem uma exigência e promove uma sobrecarga maior nos serviços do município.

Apesar dos bons números nas exportações, que mostram que, em 2025, Pombal exportou 247,2 milhões de euros, em linha, praticamente, com os valores registados no ano anterior, este ano, em termos distritais, o concelho de Caldas da Rainha ficou com o quarto lugar de Pombal, entre os mais exportadores. E isso deve-se a uma só empresa: a Tekever. Pombal também precisa de atrair as suas Tekever. O que está a autarquia a fazer para as captar?

Pombal e a região precisam muito de empresas de grande dimensão. Temos de trabalhar em conjunto, na região, para conseguirmos atrair investimento diferenciador, como esse, em articulação com a AICEP, precisamente para termos empresas com essa dimensão nos nossos territórios. O que estamos a fazer? Além desta componente de "diplomacia económica", estamos a expandir a dimensão dos nossos parques empresariais. Aprovámos, em reunião de câmara, no início do mês, a adjudicação da ampliação da Zona Industrial da Guia. Estamos a falar de cerca de 17 hectares e 21 lotes, numa zona muito importante, porque está na interligação entre A17, IC8, A1 e da futura plataforma logística para a qual estamos a trabalhar. Isto não é um anúncio, é uma concretização. A Zona Industrial da Guia terá disponibilidade para, no âmbito também da estratégia que estamos a realizar com as próprias empresas e com a AICEP, que tem sido a nossa parceira, termos disponibilidade de espaços físicos para acolher esse tipo de empresas. E estamos a fazer trabalho semelhante noutros parques industriais com a mesma finalidade. Temos ainda um gabinete de apoio ao investidor e ao desenvolvimento económico, com duas pessoas afectas; paralelamente, estamos a consolidar também o nosso ecossistema de inovação e empreendedorismo, com os espaços de cowork, com a incubadora de empresas e com um centro de inovação ligado à área da sustentabilidade. E, portanto, todas estas estruturas interligadas vão contribuir para esse desiderato de conseguir atrair mais investimento. Nos últimos meses, este esforço ficou altamente condicionado devido à tempestade Kristin, e com o apoio extra que tivemos de dar também às empresas do nosso concelho que foram afectadas. Fomos nós, os interlocutores, junto das entidades a nível nacional, IAPMEI e outras instituições, para apoiar as estruturas empresariais, nesta fase da recuperação.

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Pombal não participou no Bata Branca e a ministra da Saúde lançou dúvidas sobre as suas próprias Unidades de Saúde Familiar Modelo C, com gestão privada. O acesso a médico de família está mais longe ou mais perto de Pombal? O que pode o município fazer para garantir esse acesso?

Fizemos uma evolução brutal, nos últimos dois anos, na Saúde. Tínhamos mais de 17 mil pessoas, em 2024, sem médicos de família, e hoje temos duas mil pessoas sem médico de família. Foi uma evolução brutal. Fizemos uma acção de charme, com profissionais de saúde que tinham treinado a especialidade de cirurgião familiar, para dar a conhecer a nossa estratégia municipal de saúde, ao abrigo da qual avançámos com a construção de novas unidades de saúde. Começou, recentemente, a construção de quatro unidades de saúde, por um valor de dez milhões de euros. Criámos um programa específico para atrair médicos de família que viessem para as Unidades de Saúde Familiar de Pombal, temos todo o concelho já constituído em USF e, neste momento, a informação que tenho é que, no próximo ano, vamos ter cobertura total da rede de médicos de família.

Com o prazo a concluir, em que fase estão as obras do PRR de responsabilidade da autarquia?

Está a ser muito desafiante. Os empreiteiros estão com muitas dificuldades em terminar as obras no prazo que tem sido estabelecido. Estamos ainda na fase de pressionar os empreiteiros para que consigam executar a maior parte das obras, ou seja, mesmo que não as consigam completar, que consigam executar o máximo das empreitadas dentro do prazo estabelecido. Estamos em articulação com os serviços de fiscalização externa de cada uma das obras, precisamente para nos ajudar a nós e aos empreiteiros a avançar o mais rápido possível com a execução dos trabalhos. Mas já temos noção que vamos ter dificuldade em várias obras de completar no prazo e, por isso, estamos a trabalhar também com o Governo directamente, e também com a Associação Nacional de Municípios, mas, essencialmente, com o Executivo, para criarmos mecanismos de transição para que estas obras não parem e para que sejam concretizadas.

Há alguma, em específico, que esteja mais atrasada?

Temos desafios na Escola Gualdim Pais e em três unidades de saúde.

Quando acabará o descontentamento com o estado do IC2, após a suspensão das obras de requalificação no ano passado, e com as filas e batidas quase diárias no IC8, entre os cruzamentos da Aldeia do Vale e de Vila Cã?

A população está descontente e nós temos reclamado, pelos mais diversos canais, a urgência na reparação dessas duas vias rodoviárias. Quanto à intervenção no IC2, entre o Barracão e Pombal, aquilo que nos disseram foi que o compromisso foi rever o projecto de requalificação e é disso que estamos à espera. Mas temos também boas notícias. Eu próprio falei com o senhor ministro das Infra-estruturas e com o responsável da Brisa — Auto-estradas de Portugal, para, na renegociação que está a ser feita com a Brisa, incluírem o nó de acesso à A1, na zona de Barracão-Meirinhas. É um compromisso que espero que seja concretizado no âmbito desta renegociação e, no IC8, já fizemos todas as diligências para que realmente haja uma intervenção urgente, de reparação dos danos da tempestade Kristin e uma outra intervenção mais profunda. Esperamos por boas notícias.

Quando era presidente da Junta de Freguesia de Pombal, anunciou a intenção de criar um grande parque verde, na zona limítrofe do Castelo de Pombal. Como está esse processo?

A nossa aposta passou a ser o parque verde urbano nas margens do Arunca. É um dos sonhos mais antigos dos pombalenses. No último mandato, conseguimos adquirir os terrenos que, há mais de duas décadas, eram ambicionados e que estavam na continuidade do núcleo urbano e junto à zona desportiva. Conseguimos resolver a aquisição desses terrenos, conseguimos avançar com as iniciativas em diversas entidades e, neste momento, adaptámos este plano também ao reforço da resiliência do próprio tecido urbano, criando também zonas de retenção das águas do rio Arunca, precisamente para estarmos mais bem preparados no futuro no caso da ocorrência de fenómenos climáticos mais extremos. O nosso compromisso é, até Agosto, termos concluído o projecto de execução, para avançarmos ainda este ano com o procedimento concursal.

Perfil

Uma vida dedicada à política

Licenciado em Direito, com pós-graduações em Gestão Autárquica, Direito do Desporto e Direito Administrativo, e mestrado em Ciência Política, Pedro Pimpão, 46 anos, nascido a , advogado, cumpre o segundo mandato à frente da Câmara Municipal de Pombal.

Acumula esse cargo com o de presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses, para onde foi eleito em Dezembro.

Foi presidente da Comissão Política da Secção de Pombal do PSD, deputado eleito pelo círculo de Leiria nas 12.ª e 13.ª legislaturas e foi presidente da Junta de Freguesia e vereador no município de Pombal.