Viver
Palavra de Honra | No meio do caos, o melhor é ser-se poesia
Francisco Santo, fotógrafo
- Já não há paciência… para o multitasking das palavras. Todas as palavras podem ser tudo e tudo pode ser qualquer coisa. Qualquer coisa pode ser a verdade, a verdade pode ser uma coisa qualquer e o sentido fica perdido no avesso desta ginástica linguística, onde já pouco interessa onde fica a linha do horizonte para quem insiste que a terra é plana.
- Detesto… gelados que ficam na arca de um verão para o outro. Se eu quisesse gelo com sabor, provavelmente teria pedido um granizado na esplanada de uma qualquer praia espanhola.
- A ideia… é o mistério da coisa. Algo que se materializa no éter da existência, que salta ao eixo com os neurónios, num belo exercício de física quântica elevada ao expoente do exagero. Desde o big bang mental até ao encontro do planeta habitável, que existe no espaço onde a ideia gera raízes.
- Questiono-me se… é possível viver sem música? Se desliguei as luzes antes de sair de casa? Se fechei o carro e se tenho as chaves no bolso, logo depois de as guardar. O que queria do frigorífico depois de o abrir, onde pousei o telemóvel ou se marquei a tosquia para para o meu cão ou para mim?
- Adoro… passear e visitar a natureza como quem vai a casa de um familiar. Adoro os passeios de olhos colados na paisagem a desenhar as copas das árvores, os campos forrados pelas vontades de quem os cultivou, as pedras e as rochas e as serras que delas nascem, descobrir as curvas dos rios que ainda não desistiram de dar de beber… Não sei se isto, nos dias de hoje, ainda é legal. Ou se o objectivo é acabarmos por esquecer da natureza como os que se esquecem dos gelados, na arca, de um ano para o outro.
- Lembro-me tantas vezes… que no meio do caos, o melhor é ser-se poesia.
- Desejo secretamente… um arroz de marisco na Azenha do Mar.
- Tenho saudades… de ser puto e ligar aos meus amigos, naqueles saudosos telefones fixos com botões, e perguntar onde era para ir… Porque ir era muito mais importante do que saber o que era para fazer.
- O medo que tive… de ser apenas eu, quando não pude ser mais nada.
- Sinto vergonha alheia… de quem não se sente. Sei que nos dias frios fica mais difícil sentir as extremidades e que no verão, a sudação e a areia nas engrenagens, complicam o processo cognitivo que nos deixa ser humanos e sentir empatia e outras cenas assim revolucionárias. Mas quem não se sente… não tem como ser um pessoa competente. É assim o ditado, não é?
- O futuro… se ele existir que envie um postal, uma carta, um email ou um qualquer sinal de fumo digital, para que se possa ter a certeza de que ele é mais do que os aparentes cinco minutos de amanhã.
- Se eu encontrar… foi porque alguém o perdeu primeiro. Vivemos um problema colectivo de falta de memória. É capaz de ser culpa dos suplementos.
- Prometo… prometer pouca coisa, que fazer promessas nunca foram bom agouro para quem as prometeu. Ou isso ou então prometo ser do contra. Vamos ver.
- Tenho orgulho… em todos os que conseguem ser também para os outros e que recusam os populismos.