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Palavra de Honra | Há tanta gente que nunca falha que alguém tem de equilibrar o ecossistema

24 jan 2026 17:00

Ana Isabel Graça, terapeuta da fala e docente do ensino superior

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Já não há paciência… para ruído disfarçado de opinião sobre tudo. Sobretudo quando nem sequer foi pedida. Mas se querem uma opinião sincera, as pessoas estão cada vez mais ruidosas, literalmente... (por favor, parem de mascar pastilha enquanto falam, como se isso fosse fixe!)

Detesto… quando as pessoas não agradecem quando lhes faço o favor de dar passagem no trânsito. Que acham que boa educação é opcional ou reservado para ocasiões especiais. Acho que devia haver um estudo sobre a correlação entre traços de carácter e personalidade e o tipo de comportamento no trânsito. Esperem, fui pesquisar no ChatGPT e já “existem pesquisas robustas” acerca desta associação. Dica: queiram fazer parte do grupo da amabilidade e menos do neuroticismo. Se desejarem posso indicar-vos instruções simples: levantar a mão em sinal de agradecimento.

A ideia… vem. Pode tardar, mas vem. Pode ser devagarinho, mas ela chega. Às vezes um pouco aleijada da cabeça. Desfigurada. Outras vezes trespassada por uma bala que lhe desfaz as entranhas e a atira ao chão imóvel. O plano afasta-se, está de noite e há nevoeiro e, quando menos esperavas, porque já não acreditavas, ela ergue-se lentamente, mas estoicamente. Lá vem ela cambaleante, sofrida, para te mostrar que um dia, que não aquele, tu vais conseguir.

Questiono-me se… o meu marido terá tirado a roupa da máquina... E se este tipo de pergunta não será afinal a verdadeira prova de maturidade emocional.

Adoro… o silêncio da manhã que não tenho. Nunca ninguém me disse que ter filhos fosse ouvir berros às sete da manhã porque sim, porque acordaram, porque vivem. Talvez depois disto, apareçam especialistas do Instagram a sugerir que no tópico anterior eu me questione sobre parentalidade positiva. Podem sugerir. Eu continuo cansada.

Lembro-me tantas vezes… do meu avô Necas a enrolar-me madeixas de cabelo até eu adormecer. Há pessoas que deviam existir para sempre e não apenas na memória.

Desejo secretamente… ser uma rockstar. Está no meu ADN. Infelizmente, já havia muitos na família.

Tenho saudades… de algumas versões antigas de mim, mas não que as quisesse de volta. Não estaria disposta a abdicar desta vida adulta, funcional e responsável por ingenuidade confortável e ligeiramente embriagada.

O medo que tive… de escrever isto não me deixou deixar de o fazer. Na vida e no jogo o importante é participar. E usar frases feitas sempre que possível.

Sinto vergonha alheia… quando vou de encontro há capassidade inpercionante que algumas pessoas teem de esquerever como se não houve-se uma coiza que chamasse corretor ortográfico. Excluem-se pessoas com dificuldades reais na leitura e na escrita. Falo apenas dos 90% que o fazem por convicção e que, por isso, me fazem encarquilhar os pêlos das axilas (pêlos ainda leva acento circunflexo, certo?)

O futuro… é uma entidade espiritual com a qual me relaciono com alguma pseudonaturalidade, na tentativa de ser livre de pensamentos e antecipações ruminantes, que se não houver cautela podem paralisar músculos e mente. Mas não consigo deixar de pensar no que é que vou fazer para o jantar.

Se eu encontrar… um voo barato apenas para abraçar uma amiga que está longe, sou pessoa para isso. Porquê? Porque sou uma pessoa amiga do seu amigo.

Prometo… falhar. Não é promocional (título de um livro para quem desconhece). Nunca li. Particularmente, não aprecio muito falhar, até me deixa bastante inquieta. Mas sinto que pode ser diferenciador, não sei. Há tanta gente que nunca falha, que alguém tem de equilibrar o ecossistema.

Tenho orgulho… na pessoa que me tornei. Tudo poderia indicar o contrário: pais divorciados, uma criança carente, um lar desfeito, escolhas estéticas questionáveis na adolescência. Ainda assim, ouvi de alguém de quem gosto muito que sou uma pessoa bastante equilibrada... e isso vale mais do que muitas conquistas visíveis, mesmo para quem precisa de 50 dioptrias para as conseguir ver.