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Kontra Kultura: nova editora discográfica celebra a cultura e luta contra a uniformização
Carlos Matos considera que a "música sempre foi um território sem passaporte"
Depois de mais de trinta anos a construir pontes entre o público e os palcos, Carlos Matos decidiu que era tempo de dar mais um passo: fundar a Kontra Kultura. Com uma aposta clara no vinil, fala sobre a resistência do suporte físico, o lugar da política na arte e a urgência de editar o que os algoritmos ignoram.
Depois de tantos anos a organizar concertos, criar uma editora era uma inevitabilidade?
É uma consequência de tudo o que fiz nas últimas três décadas e do facto de ser um coleccionador que valoriza não só a música, mas também o suporte físico. É por isso que as edições em vinil da Kontra Kultura partilham texturas e uma identidade visual comuns, reservando grande protagonismo à fotografia. Dessa forma acrescenta transdisciplinaridade e valor a um artefacto que transcende a sua função utilitária para se afirmar como objecto cultural. O streaming democratizou o acesso à música, mas também a tornou descartável. O vinil combate essa banalização porque exige tempo, atenção, contemplação, estima e até manutenção. Acima de tudo, promove uma relação íntima entre o ouvinte e o objecto musical.
A primeira edição é de uma banda da Nova Zelândia. Geograficamente falando, não poderia ser mais distante.
Conheci a música dos KOMUNITAT no Bandcamp e fiquei vidrado. Não é um projecto preocupado em seguir tendências nem em agradar a algoritmos. Há urgência, personalidade, consciência política, densidade poética e uma linguagem estética e musical que encaixa perfeitamente naquilo que quero que seja a Kontra Kultura. Nunca vi sentido em limitar uma editora às fronteiras do país onde nasce. A música sempre foi um território sem passaporte.
Qual é o significado do nome da editora?
A Kontra Kultura não pretende ser contra a cultura; pretende ser contra a uniformização da cultura. Interessa-me editar artistas que recusam fórmulas, que desafiam convenções e que mantêm uma visão artística íntegra. Num mundo em que tudo é (sobre)exposto, editar bandas como os KOMUNITAT, cujos elementos se recusam a ser fotografados ou a revelar as verdadeiras identidades, é um bálsamo que merece ser saudado e que nos faz concentrar totalmente na arte em si e não em quem a cria.
Tens sido bastante vocal em relação a certas geopolíticas. Essa é uma condição da arte no mundo contemporâneo?
Nunca acreditei que a arte exista num vazio. Por isso, separar completamente arte e realidade parece-me um exercício artificial. Toda a criação artística transporta uma visão do mundo, mesmo quando pretende ser neutra. A neutralidade também comunica uma posição. Não acho que todos os artistas tenham a obrigação de fazer intervenção política, mas acho estranho exigir silêncio precisamente àqueles que escolhem falar quando assistem a injustiças evidentes. A música pode ser (apenas) entretenimento e essa é a que menos me interessa. Prefiro a que tem memória, denúncia e resistência. O resto fica na consciência de cada um.
E agora o que é que se segue?
A Kontra Kultura tem várias edições em preparação. As que já posso revelar são Circunsfera, um álbum que recupera gravações de arquivo de música concreta e experimental do compositor Gouveia de Lacerda, e o LP Música Popular Ritualística Vol. 1, do histórico projecto industrial Ode Filípica, um trabalho desenvolvido ao longo de mais de dois anos que promete surpreender muita gente, incluindo os fãs de longa data.