DEPRESSÃO KRISTIN

E depois da tempestade? Como lidar com traumas e emoções em turbilhão

5 fev 2026 08:18

Apoio psicológico nas unidades de saúde e serviços das câmaras municipais

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“Ter esse cuidado” e “solidariedade”, diz a psicóloga Mariana Meiavia, “é essencial”
Ricardo Graça

De repente, parece mesmo possível que o céu nos caia em cima da cabeça. Um turbilhão de emoções e terreno fértil para traumas. O mais importante: a ajuda existe. As unidades locais de saúde (cuidados primários e hospitais) e o Centro de Apoio Psicológico de Intervenção em Crise do INEM têm técnicos disponíveis para trabalhar com a população afectada pelo mau tempo.

O mesmo acontece nas autarquias – Leiria, por exemplo, disponibiliza duas psicólogas e Pombal pôs a funcionar uma linha de apoio psicológico por telefone.

Quando acreditamos que a casa vem abaixo, o mundo abana como num sismo. “Têm de saber que as crianças pequenas estão tristes. Estou preocupado, porque não sei se a minha professora está bem, se os meus amigos e família estão bem”, conta Afonso Rodrigues, agora a perceber que a festa de aniversário também foi cancelada. “Sinto-me inútil. Não consigo ajudar. E os crescidos sabem viver sem luz, sem internet. Eu sempre ocupei o meu tempo com jogos, com televisão, com coisas digitais”.

Reeditado há cinco meses pela Ordem dos Psicólogos com a Direcção-Geral da Saúde, o documento “Como lidar com um desastre natural”, disponível na internet, é um guia para cenários semelhantes ao incêndio de 2017 no Pinhal de Leiria, e outras situações limite, como a depressão Kristin, que atingiu a região na semana passada.

Apoio: serviços com apoio psicológico
 
Centros de saúde e hospitais. As unidades locais de saúde (os centros de saúde ao nível dos cuidados primários e também os hospitais) têm respostas de apoio psicológico. Em situações como a depressão Kristin, avançam também os técnicos do Centro de Apoio Psicológico de Intervenção em Crise do INEM.
 
Câmaras. Diversas autarquias (câmaras e juntas de freguesia) estão a disponibilizar equipas com psicólogos para a população afectada pela depressão Kristin. Há ainda linhas de apoio psicológico por telefone criadas pelos municípios.
 
Privado. Se não encontrar resposta nos serviços públicos, procure no sector particular.

O modo como crianças e adolescentes reagem ao evento depende de aspectos como a idade, a experiência prévia com acontecimentos traumáticos, as circunstâncias de vida e a capacidade para lidar com a adversidade.

É normal que sintam tristeza, ansiedade, preocupação, zanga, vontade de chorar, que expressem confusão, porque as rotinas estão alteradas, e que não queiram largar os pais. Também é comum que, pelo contrário, procurem ficar sozinhos. Podem apresentar dores de cabeça ou dores de barriga. Outros sinais incluem dificuldades de concentração, perturbações do sono e alterações do apetite.

O que fazer? Falar sobre o que aconteceu, acolher pensamentos e sentimentos, explicar que estão seguros, limitar a exposição deles aos media. Por outro lado, encorajá- los a ajudar e informar sobre o apoio a desalojados e a reposição da electricidade, água e comunicações. E é importante manter a esperança, porque os mais novos são influenciados pela forma como pais e cuidadores se comportam.

Nos últimos dias, a psicóloga Mariana Meiavia, da Câmara de Pombal, tem escutado “pessoas muito revoltadas, a tentarem encontrar culpados e responsáveis”, o que “faz parte deste processo”. Mostram-se “angustiados por tudo o que estão a perder, as casas, os animais, os bens” e pela “falta de respostas mais céleres” relacionadas com obras ou fornecimento de energia.

Importa “dar um espaço de escuta, de ventilação, de compreensão”, porque “são sentimentos naturais”, comenta a psicóloga, que destaca: “com o passar dos dias, das semanas e dos meses, as ajudas começam a ser menores, começa a haver menos notícias e as pessoas começam a sentir-se muito isoladas”. Aí, quando deixarem de estar centradas na protecção física e dos seus bens, a depressão Kristin “pode deixar algumas marcas e alguns traumas”.

Por outro lado, impõe-se “estarmos atentos a situações de maior isolamento social”, desde logo, “idosos que vivam sozinhos”. Bater à porta, perceber como estão. “Ter esse cuidado” e “solidariedade”, segundo Mariana Meiavia, “é essencial”.

Não existe uma maneira certa ou errada de reagir, avisa a Ordem dos Psicólogos. Choque, negação, irritação, mudanças de humor repentinas e sensação de vulnerabilidade, frequentemente, tomam conta dos adultos expostos a um desastre natural. Podem isolar-se, dormir ou comer pior, sentir náuseas ou dores de cabeça, ter memórias que desencadeiam reacções físicas (coração acelerado ou suar).

Recomendações? Aceitar que as emoções intensas são parte da resposta ao stress, dar tempo para o luto, dormir bem, comer bem e fazer exercício, partilhar emoções com outras vítimas, evitar o álcool e as substâncias psicoactivas, voltar à rotina.

A bastonária da Ordem dos Psicólogos, ouvida pela agência Lusa, salienta que “os próximos três meses são fundamentais”.