DEPRESSÃO KRISTIN
A mais longa madrugada e o duro despertar para o horror
Casas e fábricas varridas pela tempestade, milhares e milhares de árvores tombadas, estradas intransitáveis. Falta água, luz, telecomunicações e registam-se os primeiros óbitos. Região de Leiria amanhece com cenário incomparável de devastação
Depois das depressões Ingrid e Joseph, e apesar das mensagens de alerta para a chegada de uma nova tempestade, que chegaria ao continente na noite de quarta-feira (28 de Janeiro), a população adormeceu tranquila. Kristin, julgavam, não seria mais do que vento e chuva forte.
Mas, durante a madrugada, cerca das quatro horas da manhã, a natureza mostrou a sua força e, em picos de fúria, que nalguns locais se manifestou por duas longas horas, a região de Leiria foi sacudida por rajadas de quase 200 quilómetros por hora.
Com um som ensurdecedor, o vento arrancava telhados, rompia por portas e janelas. Acordadas em sobressalto, algumas famílias tentaram com toda a sua força contrariar a entrada da ventania e, num braço-de-ferro inglório, salvar a sua vida, os seus pertences, os seus animais. Outras, na sua impotência, abraçadas na mesma cama, rezaram, choraram, julgando despedir-se.
Depois de uma madrugada em alerta, o vento e a chuva deram tréguas, mas ninguém estava preparado para o cenário dantesco de devastação que as primeiras horas do dia revelaram. Quase todas as casas sofreram danos deixados pela Kristin, essa tal depressão que a região de Leiria nunca irá esquecer.
Prédios sem cobertura, algumas moradias sem telhas, outras totalmente desprovidas de telhado, soprado como papel para metros de distância. Varandas de cimento caídas no chão. Milhares e milhares de árvores, pinhais inteiros cortados numa razia, campos de eucaliptos penteados sobre o solo.
Troncos tombados sobre casas e estradas, sobre cabos de electricidade. Não havia luz, não havia água, não havia telefone. Apenas silêncio, quebrado aqui e ali pelo gritar das sirenes. Com estradas obstruídas pelas árvores, ambulâncias e carros de bombeiros tentavam furar para acudir às inúmeras ocorrências. Ouvem-se serras, tenta-se cortar e afastar troncos. Aqueles que é possível afastar.
Desesperadas, as populações tentam saber como agir, saber dos seus. Liga-se o rádio no carro, mas as estações passam música, os animadores continuam entretidos nas suas graçolas da manhã e o noticiário fala de política, desporto, passando ao lado da desgraça. Sem telecomunicações, a região está isolada.
Leiria irreconhecível
Na cidade de Leiria, à passagem do carro do JL, pessoas abordam. “Nunca vi nada assim”, dizia um casal de idosos, que olhava para o arvoredo derrubado junto ao percurso Pólis. “Rezei tanto esta noite”, contava um homem, exausto depois de tanto lutar toda a madrugada, usando o próprio corpo para segurar a porta de casa. “Conhecem o meu marido? Digam-lhe que estou bem”, pedia Diana Silva, em desespero.
Fossem novos ou velhos edifícios, quase todos ficaram marcados pelas rajadas de vento: desapareceu a cobertura do estádio municipal, foi destruído o terminal rodoviário, há danos nas piscinas municipais. Praticamente todas as vitrinas do comércio estão quebradas. Quem pode limpa e retira entulho, arrasta-o para os contentores.
Além de árvores, as ruas estão pejadas de enormes estruturas metálicas amachucadas, que foram arrancadas dos edifícios e projectadas por todo o lado. Pesados outdoors ficaram entortados e derrubados.
Os carros saem à rua, amolgados e cheios de plástico, usado como penso rápido para acudir às mazelas deixadas por uma madrugada de árvores, telhas e muros a ruir. A polícia aborda condutores e tenta desviar o trânsito. Ignorando alertas das autoridades - porque não há telecomunicações - continua muita gente a circular. “Será que a escola dos meus filhos abriu? Será que tenho gente no local de trabalho?”
Num ou outro supermercado aberto, começam a agigantar-se filas. Procuram água, procuram comida e, de telemóvel na mão, procura-se uma tomada para carregar ou, por milagre, uma réstia de rede.
Pagamento só com dinheiro. Mas a tempestade apanhou quase todos desprevenidos. Restam poucos euros no bolso e o depósito do carro vai precisar de combustível. E também não é possível abastecer.
Populares falam da situação de Leiria até Pombal. Em direcção ao norte do distrito, a queda de árvores foi tanta que há muitas zonas onde não é possível passar. Depois de mais tentativas para saber novidades, através da rádio, entram em antena opinadores, que discutem fenómenos metereológicos, políticas de ordenamento de território e planos de contingência. Alguém fala sobre os vastos hectares de cultivo dizimados pela depressão Kristin na zona do Oeste. Mas tudo é vago. Nenhuma orientação para a população local.
Até que chegam notícias mais precisas sobre a região. Inúmeras escolas e fábricas foram seriamente atingidas pelo temporal. Vão demorar a reerguer-se. E o pior confirma-se. Lamenta-se o primeiro óbito do distrito, em Monte Real, a segunda vítima mortal a ser conhecida, depois de ser registada uma primeira morte resultante da tempestade, em Vila Franca de Xira.
Chegar à zona de Monte Real e Carvide não é fácil. São muitas as estradas cortadas pelas árvores. Enquanto populares dão indicações sobre caminhos alternativos, bombeiros, com a ajuda de membros da Base Aérea n.º 5, ajudam a desobstruir as vias. Nesta zona, a subida do Rio Lis junta-se às preocupações. Há carros que arriscam passagens por lugares onde as cheias oferecem perigo.
Nesta zona, onde registos da Base Aérea dão conta de rajadas que atingiram 176 quilómetros/hora (depois disso, o próprio equipamento ficou destruído e deixou de medir), são muitas as habitações sem telhas, onde dezenas e dezenas de homens, novos e velhos, se arriscam no cimo das casas a improvisar coberturas com plásticos e lonas. No meio da devastação, despontam gestos solidários: “Vizinho está bem? Precisa de ajuda?”
Marinha Grande chora perdas
Ao longo da Estrada Nacional n.º 242, que liga Leiria e Marinha Grande, o cenário de destruição adensa-se, como milhares de árvores literalmente ceifadas. Na zona industrial da Barosa, multiplicam-se os edifícios empresariais parcial ou totalmente perdidos. À entrada da Marinha Grande, um conjunto de casas modulares foram sopradas pelo vento e empilharam-se contra um muro, como se fossem legos largados ao acaso.
Na chegada à cidade, civis ajudam a desviar o trânsito. Na estrada principal caíram tantas e tão pesadas árvores, que não é possível passar. No recinto do Sporting Clube Marinhense, um grupo de meninos abraça-se e chora a sua tragédia. Na véspera de completar o 87.º aniversário, a colectividade perdeu por completo o pavilhão onde jogavam várias gerações de atletas, de hóquei em patins, patinagem artística e basquetebol.
Bruno Julião, pai de uma das crianças, é um dos homens que engole a tristeza e ajuda a retirar entulho. Maria Ivone, a esposa, chega entretanto e não contém as lágrimas. Pessoas que viam a colectividade crescer enquanto se faziam homens, deitam mãos à cabeça e olham agora para o vazio.
Nas imediações, os vizinhos do clube saem de casa para avaliar os estragos. Partes metálicas da cobertura do pavilhão atingiram o seu carro. E de novo se exclama “nunca na vida vi nada assim”.
Na zona da Boavista, o Pavilhão Municipal de Exposições, que servia também de mercado, está todo destruído. Um casal que caminha pela cidade pára diante do quadro desolador e partilha incrédulo: “nós não tivemos nada grave em casa”. Já o filho, que tinha investido para construir uma quinta, perdeu tudo.
Entre os populares ouvem-se mais relatos de perdas, desta vez na Zona Industrial de Casal da Lebre: “parece que a Crisal e a EIB também estão muito estragadas.”
Devastação na Praia da Vieira
Um helicóptero sobrevoa a costa. Na Praia da Vieira é enorme a devastação. Há casas e prédios com coberturas, janelas e portas destruídas, chaminés caídas. Todos os restaurantes da marginal têm vitrinas partidas, há danos nas piscinas e nos hotéis do grupo Cristal. A força dos ventos foi tanta, que uma casa móvel foi cuspida do parque de campismo para o meio da estrada.
Depois da passagem do furacão Leslie, em 2018, cujos ventos tinham destruído por completo os restaurantes da Praia da Vieira, falta coragem a quem se vê uma vez mais sem os seus negócios. “Coitada da minha patroa”, lamenta Ana, empregada do restaurante-bar Sun7, um dos apoios de praia abatidos com a passagem da Kristin.
Com um grupo de pessoas, a funcionária tenta recuperar as poucas loiças e bebidas que restam. Só uma parte da cozinha se manteve de pé. “Mas quem garante que, depois de tanto vento e chuva, algum electrodoméstico ainda funciona?”, interroga-se a empregada. Enquanto vasculha entre os destroços do bar, Ana teme pelos seus próprios bens.
Moradora na vila, em Vieira de Leiria, também ela tem vidros partidos em casa. “Sem água e sem luz, a comida vai estragar-se.”
Luís Santos e Margarida Alcobia estão sentados dentro do seu café. Com as vitrinas partidas pelos destroços que o vento arremessou, o casal vê-se obrigado a vigiar o estabelecimento. Contam que outros espaços comerciais da praia já foram pilhados e não querem arriscar. “É um oportunismo louco”, lamenta Margarida.
“Esta loja é arrendada. Nem sei como será a história dos seguros”, acrescenta Luís. Numa sapataria próxima, o casal que limpa e improvisa tapumes para substituir as vidraças, não se demora em conversas. “Em casa, perdemos dois carros e o telhado. E agora isto."