Entrevista
“Há menos mulheres a aparecer nas letras porque as oportunidades não são iguais”
23 abr 2026 09:00
Paulo Kellerman faz 30 anos de carreira a 23 de Abril. O escritor de Leiria começou nas letras com um “pseudónimo estúpido”, para ganhar uma caneta Parker e nunca mais parou. Hoje, com livros publicados, um prémio da Associação Portuguesa de Escritores e trabalho traduzido, escreve sobre o que incomoda, desafia e perturba
Diz que o pseudónimo Kellerman nasceu para "sabotar os que procuram caras associadas a nomes". Trinta anos depois, ainda serve esse propósito ou tornou-se ele próprio uma máscara difícil de tirar?
Antes de ser uma máscara foi outra coisa. Eu precisava de um pseudónimo porque estava a concorrer a um concurso do grupo do Diário de Leiria, uns suplementos que se chamavam Centro de Portugal, e inventei um nome estúpido — e a ideia era mesmo ser estúpido. Ganhei o concurso, cujo prémio era publicar o texto e uma caneta Parker. O texto foi publicado com esse nome e era suposto a história acabar ali. O que é que aconteceu? O Diário de Leiria convidou-me a continuar a escrever contos e aí é que se tornou numa máscara. Pensei "sou muito novo", "cheio de ideias", "isto pode correr mal", e, como tinha 21 anos, achei que era importante proteger-me de alguma forma e ter um nome longe de mim, por uma questão de protecção e de insegurança. Usei esse nome que já tinha dado boa sorte e fui mantendo sempre essa estratégia. Depois, aconteceram coisas, evoluções, e sempre que havia uma novidade, ponderava se o deveria manter. A seguir, escrevi para o DNA, do Diário de Notícias (DN), para o DN Jovem, o próprio DN e outras publicações desse grupo editorial. Ponderava sempre, mas continuava a ser jovem e inseguro, e na questão da literatura e da escrita, a insegurança é uma coisa bastante presente, e fui mantendo. Entretanto, veio a publicação do primeiro livro e aí é que equacionei que já chegava de andar a esconder-me por trás deste nome... mas o que tinha acontecido? De alguma forma, o nome já existia e havia uma identificação de um certo tipo de texto àquele nome. Estava inclinado a abandonar o pseudónimo e assumir finalmente o meu nome, apesar de sentir que perderia alguma coisa. Só que descobri que o meu nome verdadeiro [Paulo Frias] já era usado por alguém que escrevia nos jornais. Ficou resolvido.
Há momentos em que Paulo e Kellerman entram em conflito? Quem ganha?
Está a fazer 30 anos que uso este nome. Tenho 51 e a maior parte da minha vida tem sido com ele. O Kellerman tem ganhado, porque não há razão para alguém achar que é um pseudónimo. As pessoas assumem naturalmente que é o meu nome. Tem piada e eu rio-me com esse lado divertido. Num evento literário em Portugal, já me perguntaram a que horas chegava ao aeroporto, porque pensavam que vinha do Brasil. A FNAC tinha os meus livros na secção de literatura estrangeira. Nos hotéis é sempre divertido. É uma parvoíce. Mas ao mesmo tempo, já são 30 anos e também já me habituei. Quando me conhecem, perguntam-me de onde vem o meu nome, qual é a minha origem, se sou francês... Há uma história que costumo contar, que tem piada, sobre um general francês da época das invasões, que esteve em Leiria e chamava-se Kellerman. Eu conto essa história e as pessoas ficam muito impressionadas. E depois digo-lhes que sou escritor e o trabalho é inventar histórias. Sendo uma história verdadeira, é uma apropriação da realidade. O pseudónimo surgiu de Jonathan Kellerman, autor norte-americano de thrillers, que eu estava a ler quando preparava o texto para enviar para o concurso.
Em 2016, lançou o romance Serviços Mínimos de Felicidade, que serviu para assinalar as duas décadas de trabalho literário. E em 2026, haverá novo romance?
Não, não haverá. Foi a primeira vez que publiquei um romance, foi a segunda vez que escrevi um. Tenho outro, escrito muito no início da carreira e que, de vez em quando, penso se deveria publicar. O que aconteceu foi que estava na conversa com a Cátia Ribeiro, minha colega, patroa e sócia na Companhia Nem Marias Nem Manéis, e mencionei que, a 23 de Abril, faria 30 anos de escrita. Ela sugeriu que fizéssemos algo para marcar a data e vamos fazer um evento, nesse dia, na Livraria Arquivo, em Leiria.
Há um livro, uma frase, um momento neste percurso que considera como ponto de viragem?
Há momentos que consigo perceber que marcaram alguma diferença. Começar a publicar no DN, editar, em 2005, o primeiro livro Gastar Palavras, pela Deriva, do Porto, onde publicaria, nos anos seguintes, mais três obras. Esse primeiro livro foi absolutamente marcante para mim, tal como foi, no ano seguinte, receber o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco, da Associação Portuguesa de Escritores, com ele. Igualmente marcante foi começar a trabalhar em teatro, primeiro com O Nariz, com uma peça chamada Libelinhas, e marcou uma transição grande na minha forma de estar na escrita. O teatro representa uma vontade grande de trabalhar com outras pessoas. A escrita não é um fim em si, mas faz parte de algo que é construído em conjunto com outras pessoas de outras artes. O teatro permitiu isso e nunca mais o larguei. Trabalhei com outras companhias, como O Alguidar, com o Grupo de Teatro Apollo, voltei a trabalhar com O Nariz e isto desencadeou aquele que é um dos empreendimentos que mais me interessa: a criação da Companhia Nem Marias Nem Manéis, com a Cátia e com a Rita Rosa. Também acho que foi muito relevante trabalhar com a SAMP, especialmente na Ópera na Prisão, que me permitiu consolidar e dar protagonismo a uma coisa que vinha de trás, que é a escrita enquanto ferramenta de impacto e de afirmação social.
O Fotografar Palavras e a editora Minimalista são extensões da sua escrita ou fugas dela?
São evoluções naturais. A Minimalista foi e continua a ser muito desafiante. É como aqueles filhos rebeldes que se ama incondicionalmente, mas que também nos tiram o sono. Já publicámos 17 livros e temos aqui um património de que nos podemos orgulhar. O Fotografar Palavras, criado há dez anos, permite trabalhar com fotógrafos e abrir-me ao mundo. Neste momento, tem colaboradores de 39 países. Tivemos e temos gente do Irão, da Rússia, da Ucrânia, da Síria. Permite conhecer pessoas de outras realidades, com outro tipo de experiências, permite contactar e recebê-las em Leiria e criar uma rede que está unida pela arte, independentemente do mérito artístico da iniciativa, que tem esta dimensão humana que, para mim, é muito valiosa.
A sua escrita reflecte temas difíceis como a perda, a dor, a morte. Num mundo que prefere o conforto e a distracção, para quem escreve?
Durante muitos anos, li muita literatura policial, de que eu gosto e é fenomenal para distrair, e esse também é o papel da literatura. Enquanto leitor, procuro essa literatura, mas, enquanto escritor, ela não me interessa. Interessa-me explorar de forma honesta aquilo que me incomoda, aquilo que me desafia, aquilo que me faz reflectir. A minha percepção empírica das coisas é que, por cada leitor que tem interesse nesta forma de literatura, haverá nove que têm interesse noutro tipo de literatura. E está tudo bem. Não há uma literatura que seja melhor ou superior do que outra. O que me interessa enquanto escritor é explorar as angústias, as dúvidas, as frustrações, as dores, que podem ser minhas ou que podem ser de pessoas que conheço ou que possa intuir em quem não conheço. E há um público que tem interesse nesse tipo de literatura e nesse tipo de confronto. Há um público que tem interesse em ser desassossegado, em ser desinquietado e em ser perturbado. Não é o público maioritário. E está tudo certo e ainda bem. Tenho amigos que me dizem: "tu és muito boa pessoa, mas, para tristezas, já basta a vida e não me apetece ler sobre isso". Gosto dos livros policiais e de literatura de escape, mas também, enquanto leitor, quero ser desafiado, quero ser incomodado, quero ser desassossegado. Eu seria um leitor das minhas coisas, se não tivesse complexos em ler aquilo que escrevi após ter sido publicado, por questões práticas. A partir do momento em que um texto está fixado, não lhe posso mexer. Está publicado e é impossível não querer mexer. É muito desconfortável e quase fisicamente doloroso. Isso já não acontece no teatro, porque o texto está a ser recriado. É um organismo vivo. Escrevo um ponto de partida e se a equipa achar que deve fazer outra coisa e eu aceito. Por exemplo, tive algumas questões com palavrões e pediram-me para não usar tantos nas peças, por questões de presença de público mais novo. Tentei trabalhar isso de uma forma cuidadosa e quase científica: "se tem um palavrão é porque tem de ter". Mas depois, na criação das personagens, na encenação e nos ensaios, acontecia os actores dizerem os palavrões, porque era o que puxava ali. E esse dinamismo de dar vida ao texto é uma coisa que me satisfaz muito.
Leiria cresceu culturalmente nestes 30 anos ou apenas fisicamente?
Devido aos vários empreendimentos em que estou envolvido, acabo por receber muita gente de fora de Leiria e mesmo de fora do País. E a percepção é que Leiria tem um dinamismo cultural fora do comum. Se as pessoas de fora têm essa percepção, quem sou eu para a negar? Para uma cidade desta dimensão, não nos podemos queixar. Há claramente uma evolução, mas também há uma identidade, há uma marca e isso é um bem precioso que, muitas vezes, a própria cidade não valoriza, naquela tradição tão portuguesa onde é preciso virem as pessoas de fora para ouvir: "uau! Vocês aqui não param!" É extraordinária a quantidade de pessoas que dizem isso.
A literatura em português está de boa saúde?
No Clube de Leitura da Arquivo já tivemos esta discussão. Peço às pessoas para citarem os escritores que consideram como os mais visíveis entre os nascidos nos anos 70. Dizemos os nomes todos: Afonso Cruz, Valter Hugo Mãe, Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, João Tordo... Depois pergunto: e as escritoras? E não há nenhuma. Essa é uma das revoluções que acho mais urgente e já está a acontecer: as escritoras devem ter, pelo menos, a mesma visibilidade que os escritores. Há menos mulheres a aparecer nas letras porque as oportunidades não são iguais, mas isso não implica que haja menos mulheres a escrever. Pelo contrário. Algo está intrinsecamente mal no sistema, mas está a ser alterado. E isso é uma das revoluções mais importantes e mais urgentes da literatura portuguesa.
O que anda a ler?
Estou a ler o livro incrível Como caminhar num Pântano, para o Clube de Leitura da Arquivo, da Marta Pais de Oliveira. É uma jovem mulher com um talento incrível, que está a ganhar cada vez mais espaço. Estou a ler uma colectânea de contos de Gabriel García Márquez, estilo que é a minha preferência literária. Enquanto escritor, estou a escrever cada vez mais microficção, que é curioso porque é um regresso ao que fazia há 30 anos. Comecei com pouco e senti necessidade de ir acrescentando. Escrevi contos longos, escrevi romances, óperas e peças de teatro e, agora, estou a fazer outra vez o processo de voltar à origem e de ir ao essencial. E que mais? Estou a acabar de reler um livro chamado O Mar, o Mar, de uma escritora chamada Iris Murdoch, dos anos 70. Li-o há 15 anos e lembro-me de ter dito que era um dos melhores livros que li na vida, e agora arrisquei e mantenho a opinião.
Perfil
Da mini-narrativa ao romance
Paulo Kellerman nasceu em Leiria em 1974 e começou o seu percurso como homem das letras publicando em edições de autor limitadas e colaborando na imprensa regional e nacional.
Escreveu para o DN Jovem, para o Diário de Notícias, Diário de Leiria e publica uma coluna de opinião no JORNAL DE LEIRIA.
Editou uma recolha de micro-contos em 2001 e o primeiro livro, Gastar Palavras, em 2005, e com ele venceu o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, da Associação Portuguesa de Escritores.
Em 2016, lançou o romance Serviços Mínimos de Felicidade, que serviu para assinalar duas décadas de trabalho literário.
Kellerman tem colaborado nas mais diversas artes, da música ao teatro e mesmo escrito para cinema.
O seu processo de escrita passa por esvaziar a mente de tudo o que escreveu e começar novamente.
"Tenho um período antes da escrita, onde escrevo as coisas mentalmente."
Adora, no entanto, que a escrita ganhe vida, o surpreenda e ganhe novas dimensões, nova vida e siga por caminhos inusitados.