Opinião
Dicionário Improvisado XLIV
Alguém anda pela rua a fazer um questionário às pessoas que encontra. Apenas tem uma pergunta: és feliz?
Atraso
Um homem percebe que foi a única pessoa no seu grupo de amigos que teve uma mãe que não lhe cantou na infância. Começa por desvalorizar esta descoberta; mas como sempre teve a percepção de ter sido uma criança feliz, essa ausência começa a incomodá-lo. Como pode um adulto ser feliz se a mãe não lhe cantou canções de embalar? Decide que precisa de esclarecer o assunto com a mãe. Durante semanas, tenta questioná-la em todas as visitas que faz ao lar onde ela vive. Mas nunca tem coragem. Até que chega finalmente o dia em que lhe consegue perguntar: porque nunca me cantaste, quando era criança? A mãe surpreende-se. Depois de um longo silêncio, pergunta-lhe: não te lembras? E na sua voz idosa e cansada, ténue, frágil, canta um pedaço de uma música. Ele não consegue lembrar, tem a certeza de que é a primeira vez que ouve aquela canção. Ou poderá estar enganado? Responde que sim, que se lembra. A mãe recomeça e continua a cantar durante muito tempo, enquanto ele escuta e pensa que ainda bem que perguntou; ainda bem que foi a tempo de ouvir a sua mãe cantar-lhe.
Escravatura
Apenas sou verdadeiramente livre na imaginação. Mas, por vezes, a imaginação domina-me. Sou seu escravo.
Rótulo
Alguém anda pela rua a fazer um questionário às pessoas que encontra. Apenas tem uma pergunta: és feliz? Quando a pessoa responde que sim, cola-lhe um pequeno autocolante com a frase “Felizes Anónimos” na roupa, em local bem visível. Assim, os felizes estão identificados e podem reconhecer-se uns aos outros.
Testagem
Um cientista cria um teste de felicidade simples e barato, que pode ser utilizado por qualquer pessoa em qualquer momento. Apenas existem dois resultados possíveis: positivo (a pessoa está feliz) ou negativo (a pessoa não está feliz). O uso do teste começa por ser uma brincadeira, até que com o tempo se torna uma ferramenta social de uso comum. Depois chega o dia em que as autoridades começam a interpelar pessoas ao acaso, obrigando-as a fazer o teste; e sempre que alguém apresenta resultado negativo, a pessoa pode ser detida. A acusação é a de propagar uma doença altamente contagiosa (a infelicidade), sendo portanto uma ameaça para a sociedade.
Vergonha
Houve um homem que sentia frequentemente vontade de chorar. Mas recusava-se a fazê-lo, porque tinha vergonha de ser visto; e mesmo que o fizesse em privado, haveria sempre o risco de ser surpreendido por alguém. Não o preocupava tanto que se soubesse que chorava, mas que fosse visto a fazê-lo; para si, seria como ser visto a masturbar-se. Uma insuportável quebra da sua intimidade. Vivia dividido entre a necessidade de chorar e a recusa em fazê-lo, para não ser surpreendido. Só em raras ocasiões cedia à necessidade; e quando isso ocorria, o lugar era sempre o mesmo: trancado numa casa de banho pública, num qualquer lugar anónimo e sem relação com a sua vida. E foi precisamente numa dessas ocasiões que teve uma ideia inesperada: porque não inventar locais de choro, tal como existiam casas de banho públicas? Choradouros públicos. Porque não?