Opinião
Viver
A Arte é a tentativa de criação de mundos. Outros mundos que não aquele em que vivemos. O meio que utilizamos para o fazer é irrelevante
O músico, compositor, performer, produtor, contador de histórias e sei lá mais o quê, Brian Eno, é daqueles grandes criadores que certamente conhece ou não conhecendo merece muito o esforço de conhecer. Tem um livro chamado What art does: an unfinished theory (Londres, Faber & Faber, 2025) escrito com a escritora e artista visual Bette Adriaanse (ou Bette A.) onde se coloca e ensaia respostas a um conjunto de questões que se levantam permanentemente perante um qualquer objecto, uma música, escultura, poema ou seja o que for que se reivindica como Arte.
A primeira questão é, não podia ser de outra maneira, para que serve a Arte? Como dizem Eno e Bette, se não tivermos uma resposta minimamente estruturada não nos pode espantar que os governos a ignorem e marginalizem ou indignar por na repartição dos orçamentos do poder à Cultura, produção artística, património vivo, museus e bibliotecas, tocar pouco mais do que as vírgulas.
Não há uma resposta certa mas existem muitas respostas, todas certas. Cada uma delas tem as suas virtudes, os seus preconceitos e desvirtudes. Há quem a defina como atributo do desenvolvimento humano, a revelação física de um pensamento abstrato, mágico, auto-consciente. Há quem a defina por oposição àquilo que “não é” (talvez a mais vazia das respostas). Para Eno (e Bette) a arte é tudo o que não faz falta.
Dito de outro modo, a Arte é a tentativa de criação de mundos. Outros mundos que não aquele em que vivemos. O meio que utilizamos para o fazer é irrelevante, criamos mundos com tudo e revelamo-los ao outro apelando ao conjunto ou a um sentido particular, uma sinfonia à audição, uma dança à visão… nenhum objecto artístico nos “faz falta”, nenhum “outro mundo” é estritamente necessário. E apesar disso nenhum ser humano sobrevive intacto sem isso, sem o que “não faz falta”.
Precisamos de alimento mas não de feijoada ou lagosta à thermidor. Precisamos de um abrigo mas não de conforto ou decoração. Precisamos de um mar de coisas “para” estar vivo, não “porque” se está vivo. São todas coisas que “não fazem falta”.