Opinião

Uma mini e um pires de tremoços

22 ago 2026 21:00

Quim Barreiros ensinou-nos que dia 31 de Julho é o melhor dia para casar, naquilo que é uma metáfora para indicar que aquele é o último dia em que se pode fazer algo produtivo antes de um mês de descanso

Comemora-se neste ano de 2026 o lançamento de uma música que nos explicou que Agosto é o melhor mês do ano.

Quim Barreiros ensinou-nos que dia 31 de Julho é o melhor dia para casar, naquilo que é uma metáfora para indicar que aquele é o último dia em que se pode fazer algo produtivo antes de um mês de descanso.

Agosto funciona, em Portugal, como uma válvula de segurança que alivia a pressão acumulada durante 11 meses e permite enfrentar outros 11 meses intensos.

Durante 31 (trinta e um!) dias, espera-se que a correria do dia a dia seja substituída pela lânguida indolência temperada com sol e sal. Que as rotinas de horários e reuniões sejam substituídas pelas leituras de romances e o desafio das palavras cruzadas.

Que o stress diário seja substituído pela mais difícil das decisões: “peço tremoços ou amendoins para acompanhar esta mini?”

No fundo, dias de placidez e de deixar todas as dificuldades para Setembro – incluindo como pagar por tudo isto. Afinal, cada segundo da preguiça de Agosto é fundamental para acelerar o motor da economia.

Os bilhetes de avião, as noites no hotel ou no alojamento local, o combustível das deslocações, as refeições nos restaurantes, as bolas de Berlim pela módica quantia de 4 euros, as rifas na quermesse da festa da aldeia, e o indispensável para-vento das praias do Oeste. Tudo o que nos permite desfrutar da indolência de Agosto é pago com o trabalho dos outros onze meses.

Com a vantagem de nas férias haver mais tempo e disponibilidade para gastar dinheiro. Quem parece não compreender a importância do consumo – e do consumo de lazer – são as empresas que anunciam e planeiam substituir os trabalhadores todos por máquinas supervisionadas por Inteligência Artificial.

Na ânsia de aumentar lucros, despedem pessoas – esquecendo talvez que as máquinas não compram produtos. Não imagino como é que o ChatGPT conseguiria lidar com a nortada da Praia do Pedrógão, e estou certo de que o Grok não seria capaz de desembrulhar uma rifa na festa dos Parceiros.

Mais do que um direito inalienável e um tratamento de saúde mental, as férias são um imperativo de consumo que beneficia todos os cidadãos do país!

Deixemos os humanos desfrutar do seu ócio, e poupemos a nossa mente à indecorosa tarefa de imaginar como o Claude ficaria ridículo num bikini às bolinhas amarelas.

Em Setembro logo podemos voltar aos horrores do quotidiano. Por isso, se me dão licença, eu vou patrioticamente pedir uma mini fresquinha com uns tremoços bem salgados.