Opinião

Somos gente feita de música

2 jun 2026 21:30

A arte não nasce apenas da técnica, nasce sobretudo da autenticidade

Iniciei, este ano, uma das experiências humanas e artísticas mais marcantes da minha vida, realizar oficinas musicais com pessoas de várias idades, portadoras de deficiência intelectual. Neste espaço a música deixa de ser apenas entretenimento ou terapia: transforma-se numa forma de comunicação profunda, de completa liberdade e descoberta.

As sessões cruzam coordenação motora, ritmo, memória e voz. Cantamos, movimentamo-nos, improvisamos e, ao mesmo tempo, vamos registando tudo em gravações. Existe ali uma dimensão documental muito bonita. Cada voz fica guardada como testemunho de um momento único e irrepetível.

Muitas vezes fala-se destes projetos apenas na perspetiva da integração social, mas reduzir esta experiência apenas a isso seria injusto, pois o potencial artístico com que me deparo é deveras colossal. Algumas da vozes que ali escuto e gravo são absolutamente fabulosas. Vozes com identidade, emoção e verdade. Vozes sem filtros, sem artifícios, sem a preocupação de corresponder a modas ou formatos.

Sinto que cada recolha é um pouco da alma de cada um e que, ao juntá-las num coletivo, acabo por representar o mais genuíno ideário artístico.

Vivemos numa época em que tantas vezes se valoriza a perfeição técnica acima da emoção, talvez por isso estas oficinas sejam tão importantes: lembram-nos que a arte não nasce apenas da técnica, nasce sobretudo da autenticidade. Tenho aprendido muito mais do que ensinado. Porque naquele espaço a música não serve para esconder diferenças, serve precisamente para mostrar que cada diferença pode ter uma voz própria e que essa voz merece ser ouvida.