Opinião

#Obrigado (a)

26 jun 2026 21:30

Que bom que nem os Massive Attack, nem muitas outras bandas, ou artistas, conscientes do seu lugar de privilégio, deixam de colocar o dedo na ferida e incorporam deliberada e repetidamente na sua obra chamadas de atenção para as causas que deveriam ser de todos nós

Estive recentemente numa capital europeia, uma semana inteirinha num congresso em que pude não só apresentar uma comunicação, mas também participar na organização, moderar grupos de trabalho, receber pessoas, criar laços, e acima de tudo aprender, e onde se refletiu sobre sustentabilidade, educação, cidadania, hospitalidade, IA, e na responsabilidade que o humano tem na construção e manutenção da sustentabilidade, cultura de paz e valores cívicos e democráticos.

Falta-me dizer que o motor para esta reflexão foram as expressões artísticas e a sua relação e importância no despertar de pensamento crítico, nos projetos participativos, na co-criação, na agência e na pertinência dos espaços da educação saírem do seu ensimesmamento e abrindo permeabilidade ao contacto com as artes, com os artistas e os seus modo de ser, de estar, e de olhar atenta e criteriosamente para o mundo.

Na mesma semana em que houve quem no século XXI se indignasse com a carga política e ativista que os Massive Attack colocam nos seus concertos, pelo seu cunho ativista e fortemente político. Quem esperasse apenas música per se, ou grandes hits mais vazios e melódicos, em jeito de entretenimento para um festival de verão. Que bom que nem os Massive Attack, nem muitas outras bandas, ou artistas, conscientes do seu lugar de privilégio, deixam de colocar o dedo na ferida e incorporam deliberada e repetidamente na sua obra chamadas de atenção para as causas que deveriam ser de todos nós, cientes da sua importância e do seu papel enquanto despertadores ativos de consciências. Não fui ver os Massive Attack, mas deliciei-me com os Esquerda, aqui em Leiria no Festival A Porta.

“A luta não é só para quem a fez, é para quem fica (…) que a força mora em quem nunca se cansa…do chão ao poder há um mundo para refazer e somos nós que o vamos erguer ”.

Agora podem achar que o que vou dizer de seguida não tem qualquer relação como o que acabei de dizer…mas quanto a mim tem e muito… A semana passada fui do aeroporto de uma cidade europeia ao hotel onde estava alojada, e do local onde estava alojada à universidade, sempre de autocarro, com horários regulares e onde cada cidadão pagava rápida e autonomamente com o seu cartão ou telemóvel, viagens a preços simbólicos e justos.

Ontem, um dia antes de escrever este texto, tentei ir de Mobilis, mas não tinha dinheiro físico comigo. O motorista carrancudo disse-me que para viajar tinha de pagar com dinheiro. Perguntei se me levava e se podia pagar depois, ou se havia alguma outra maneira de poder viajar pois estava atrasada. Disse-me que teria de sair pois estava a atrasar-lhe o trajeto.

Rapidamente uma pessoa, discreta, humilde e com um ar vulnerável, e que eu nunca tinha visto, abriu a carteira e pagou-me o bilhete. Agradeci profundamente e, de pronto lhe transferi um pouco mais do que o valor pago, por mbway. Com o motorista reclamei serenamente, mas ciente de que não teria acedido a levar-me sem que alguém me tivesse pago a viagem.

E teria eu ficado ficado ali à espera ou a resolver a minha boleia de outra forma, não fosse alguém genuinamente altruísta ter olhado para mim, para a situação, e ter-se aberto numa lógica hospitaleira e verdadeiramente atenta e de cuidado, e a quem deixo de pronto um generoso obrigado(a). Porque há atitudes e gestos de gratuidade que o dinheiro não chega para pagar.

OBRIGADA!

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990