Opinião

O Lado Lunar | Recozinhar

8 mai 2026 21:30

A IA ainda está no principio, a humanidade também, por isso é boa altura de fazer aos resultados das nossas pesquisas aquilo que eu faço ao frango com legumes: recozinhar, dar um toque pessoal

Na azáfama dos dias cujo tempo não chega para tudo, eu, mero mortal humano cozinheiro cá de casa, cozinheiro de trazer por casa, recorro muitas vezes ao take away aqui de Alcobaça para cumprir com a muy nobre missão de todos os dias, pelo menos, o jantar fazer ou providenciar.

A célebre cantora Aretha Franklin tinha o mesmo dilema.

Aliás, para ela subir aos palcos e andar em digressão por todo o mundo, não lhe fazia mossa. O que realmente a enervava, era comprar, preparar e fazer a janta para a família, dia sim, dia também.

Como a entendo.

Por isso dou um salto à Casa de Frangos Almeida, compro, por exemplo, frango com legumes, uma espécie de salteado e trago para casa. Um pouco de azeite numa panela wok, alho picado, ou cebola cortada, mando o frango lá para dentro, cozo um arroz à parte, sempre com um fio de azeite e um caldo Knorr, volto ao frango que aloura, salpico-lhe com um fio de molho teriaky, et voilá. Está feito no nada se perde, nada se cria, tudo se transforma da alquimia culinária.

Tenho de lançar um livro de recozinha.

E digo-vos isto porque numa palestra na ESDACSF, em Rio Maior, e em 70% das conversas casuais que, ultimamente, tenho mantido com amigos e colaboradores, e, por vezes online, tem surgido, com a evidência do medo, o tema da inteligência artificial.

Lê-se assim num artigo do Público, sobre educação:

Batalhas inventadas, datas trocadas, narrativas falsas.” - investigadores pedem medidas urgentes depois de verem o que o ChatGPT faz à História.

Curiosamente ou não, a caixa de comentários encheu-se de palavras duras contra a IA (que não as sente, pessoal, okay?) e a maior parte das pessoas a culpabilizar a ferramenta, e não o “artesão” como se o “chat” não funcionasse ou elaborasse respostas e teorias a partir de um texto, ou prompt, inserido pelo utilizador que para já, ao que se saiba, é humano, demasiado humano.

Este apontar do dedo, este olvidar do princípio no input-no output, que até retiro da gíria musical, é um sinal do que aí vem, ou está para vir: a IA como bode expiatório digital de uma espécie, os humanos, que em vez de melhorarem a sua literacia digital se organizam, com forquilhas, penas e algodão, para a botarem fora da aldeia, num exercício da mais pura desresponsabilização.

Até é comovente.

Tão comovente quanto o alerta do Público para a distorção dos factos históricos como se a historiografia não estivesse plena de revisionismo e que não tenham sido os “vencedores” (duma guerra que ninguém ganha) a escrevê-la.

Como me dizem muitos dos meus interlocutores - que nunca pegaram num livro de Isaac Asimov -, a IA pode até substituir-nos mas duvido que atinja este grau de malandragem e “chico-expertise” que a humanidade possui neste advento tecnológico.

Sim, é verdade, a IA ainda está no principio, a humanidade também, por isso é boa altura de fazer aos resultados das nossas pesquisas aquilo que eu faço ao frango com legumes: recozinhar, dar um toque pessoal que aguce o paladar e nos contente mais a fome de demonstrar o nosso sabor, perdão, o nosso saber.