Opinião
O Lado Lunar | Portugal, Lda.
Talvez, o executivo de Espanha tenha tido um pouco mais de cojones quando se trata de enfrentar a “nova ordem” da qual a nossa direita é fã de carteirinha, o aluno preferido
Para o meu historiador preferido (Oliveira Marques) e muitos outros, Portugal é uma impossibilidade geopolítica. Não há nenhum país que tenha coabitado ao lado de uma nação tão grande como a do nossos vizinhos de Espanha, e tenha conseguido manter as suas fronteiras políticas tão inamovíveis como nós o fizemos desde há muitos séculos. Existem principados, enclaves, concessões, invasões, lutas por território, mas um país com língua, história e cultura própria e independente como o nosso, é uma raridade histórica.
A nossa convivência com os nuestros hermanos nem sempre foi pacifica mas, entre padeiras e restauradores, lá se foram arranjando convergências para nos entendermos política e comercialmente, sendo Espanha o nosso primeiro parceiro em muitas coisas e assuntos, por razões óbvias de proximidade.
O comum do Espanhol sabe muito pouco sobre Portugal e, ao que parece, não está assim tão interessado em saber mais. Já nós sabemos muita coisa ou quase tudo sobre eles. Por isso, e apesar disso, sentimo-nos, a maior parte das vezes, melhor que eles em diversos aspetos: azeite, comida, praias, vinho, futebol, falar línguas, música, não dobrar os filmes em português e não temos cá reis desde 1910. Contudo, invejamos-lhes o preço do gasóleo, as medidas do governo, o IVA baixo nas botijas de gás e no cabaz alimentar, e, regra geral, achamos que somos muito mais maltratados pelos nosso governantes que os nossos vizinhos.
Será verdade? Temo quer sim. Será culpa nossa? Não sabemos.
O que sabemos é que em Portugal este governo, cheio de iniciativa liberal para dar e vender, governa e se governa, diretamente para os acionistas, para a banca, para a TAP, para o Trump, o Putin, a Van der Liar e afins, e que, talvez, o executivo de Espanha tenha tido um pouco mais de cojones quando se trata de enfrentar a “nova ordem” da qual a nossa direita é fã de carteirinha, o aluno preferido.
Vivemos numa espécie de Portugal SA, de Portugal LDA e limitado nos direitos, nas revindicações, no sentido de orientação pública da sua governação de zero deficit versus crescimento de pobreza, sempre tarde, a más horas e de uma arrogância falada que irrita o mais paciente dos santos.
Sob pena de que um dia os nossos filhos sonhem em Espanhol.
Pelo sim, pelo não o meu já está a aprender a língua na escola.