Editorial

O homem e a máquina

16 jul 2026 07:54

Por vezes o mundo não funciona: a internet do escritório está em baixo, abre-se a torneira da água e nada, digitaliza-se o exame de português e a folha de continuação desaparece como o voo 370 da Malasya Airlines

No mundial de futebol, só há uma coisa mais polémica do que a pausa para hidratação: a tecnologia.

Com adeptos portugueses, Ronaldo e Martínez chegam para incendiar a conversa, mas se queremos semear a discórdia entre os povos, o tema tem de ser a bola, o sensor, a linha de fora de jogo e o videoárbitro.

Por vezes, não vemos um palmo à frente do nariz, nem com repetição em super slow motion, porque não nos dá jeito, outras vezes, e costuma ocorrer todos os dias, é o mundo que não funciona: a internet do escritório está em baixo, abre-se a torneira da água e nada, digitaliza-se o exame de Português e a folha de continuação desaparece como o voo 370 da Malasya Airlines.

Ninguém espera, depois de se transportarem milhões de páginas escritas à mão, de vários pontos do país, para um armazém em Mem Martins, onde são carregadas por funcionários que encarnam o castigo de Sísifo, que o sistema se engasgue precisamente no momento em que alguém grita “inovação!”. No entanto, acontece. E quando acontece, há sempre dois suspeitos: o homem e a máquina.

É caso para perguntar: um computador no meio da floresta sem humanos por perto continua a distribuir provas de Filosofia? Talvez algum ministro possa responder. Quem souber, que seja o primeiro a apontar o dedo.

Sísifo é o protagonista da exposição de Mariana, a Miserável agora patente na livraria Arquivo em Leiria. Por ousar enganar os deuses, foi condenado a empurrar uma pedra até ao cimo da montanha, só para a ver deslizar de volta ao início em cada tentativa quando se aproxima do objectivo.

Camus conclui que é preciso imaginar Sísifo feliz. Mariana, no livro novela que acompanha a exposição, escreve que Sísifo é “um herói imperfeito com amor à falha” e lembra que “o humor salva-nos da ausência de explicação para o sentido da vida”, logo, imaginar Sísifo feliz “é aprender a aceitar o caos e a desordem do universo”.

Amanhã há mais itens para corrigir. Hoje a felicidade pode ser o café para onde ligam à nossa procura a meio de uma frase sobre o VAR. Por telefone fixo, mesmo com a rede móvel disponível.