Opinião

O fim do meu mundo

21 jul 2026 09:20

A tentativa constante de sermos felizes não passa de uma necessidade primitiva de nos sentirmos fortes, relevantes e tendencialmente indefectíveis. Se possível, queremos ser importantes na deixa que abre espaço para a voz livre do outro, o que considero, aliás, uma forma muito completa de amor

Senti que o ar já arrefecera o suficiente para ser mais respirável, quase fresco nas narinas secas. Talvez, assim parecia, estivesse já nos mesmos 21 graus com que o oceano moribundo grita por socorro há vários dias. Entra-se mar adentro sem arrepio, sem a dança frenética de ossos a estalar que já esperamos por ter sido sempre assim. A sensação primária é de alegria por termos sul a oeste, mas basta arranjarmos um minuto para pensar, coisa que não apetece nada num dia de praia em toda a linha perfeito, para que a pele se arrepie e não é de frio - é de medo pela percepção inequívoca de finitude e de catástrofe generalizada à nossa espera. Estamos mesmo a chegar, sem pejo nem comoção, que os corais morrem longe e por cá aceitamos alegremente as emboscadas recentes do peixe-aranha apreciador de águas cálidas, tal como nós. Pode ser que não nos calhe a picada. É assim, tendemos a achar que a sorte há-de bafejar as nossas escolhas, por muito que a estatística nos esfregue na tromba que a probabilidade de correr mal é de levar muito em conta, no mar como na terra, na vida como na morte. No geral de se existir.

Podemos sempre fechar o cerco e tentar protecção no alheamento. Sobreviver a pão e vinho, livros e animais de estimação. Música e filmes, benzodiazepinas e recalcamento dos ímpetos que equivalem a conduzir um bólide desenfreado que corta curvas e contracurvas na estrada que conhecemos bem. Fechados em nós, encontramos a blindagem que seduz com carícias mansas de torpor seguro, vais salvar-te porque és só tu, o fogo cerrado do outro lado da linha, onde moram os outros, não ganha alcance que chegue para te furar a testa. Mas não é assim. Tens de perceber que o alheamento não passa de um paliativo rasca, de um genérico mal amanhado que cobra a sua ineficácia lá mais à frente, quando já não tiveres forças para emendar a mão. Quando o xeque já for mate e a condição de vencido te encostar no canto do tabuleiro, acocorado, incapaz de tentar outra partida que venha salvar-te a honra.

Então: parece-me haver que enfrentar. Resistir. Fazer com que valha a pena contribuir para alguma mudança, pouca que seja, manifestamente insuficiente e tardia, sim, mas que nos encha o pulmão de ar e nos instigue a expirar inspiração. Somos o que damos, não está certo guardar dádivas para peditórios que talvez nunca cheguem a estender-nos a mão. O apelo da causa planetária equipara-se à salvação da pequenez provinciana dos nossos egos fragilizados, antevemos a destruição em massa mas a sobrevivência da espécie assenta no prevalecer anterior e basilar de cada um de nós. A tentativa constante de sermos felizes não passa de uma necessidade primitiva de nos sentirmos fortes, relevantes e tendencialmente indefectíveis. Se possível, queremos ser importantes na deixa que abre espaço para a voz livre do outro, o que considero, aliás, uma forma muito completa de amor.

E por falar em amor - às vezes sabe a banhos de mar perigosamente quentes, ameaça com incêndios de labaredas incontroláveis, expõe a nossa paz aos elementos que não se podem domar, acciona planos de contingência que nunca chegaram a desenhar-se, potencia terramotos que não cabem no jornal das oito. Mas é também indulto da desesperança, é profilaxia que salva da modorra letal, é unto na gangrena dos dias em ferida, é sempre a melhor forma de se andar por aqui. Quanto mais não seja, porque o mundo vai sucumbir e nós com ele. Se realmente houver aquele último lapso de segundo em que a vida inteira nos desfila pela mente, numa sequência vertiginosa das frames que no fim de tudo importam, tenho por certo que a metragem será curta, os actores serão amores e o guião contará a história dos momentos em que fomos vulneráveis e entregámos a depuração mais crua do muito que existiu em nós.