Opinião

O carrossel da vida, o caleidoscópio falhado e os unicórnios assépticos em que quisemos acreditar

18 jun 2026 17:11

Talvez não seja o controlo que prolonga a vida, mas a forma como a vida se deixa atravessar por outras vidas sem necessidade de autorização prévia

Há qualquer coisa de inquietante nesta ideia moderna de que a vida pode ser afinada até deixar de se notar, como se o corpo pudesse ser corrigido até desaparecer dentro da própria correcção, perder fricção, falha e ruído, até se tornar uma versão asséptica de si próprio, funcional e silenciosa.

E isso não é inocente, porque um corpo sem ruído não é um corpo, é outra coisa qualquer, um objecto de gestão contínua onde tudo tem de ser medido, avaliado e optimizado.

O nosso tempo gosta dessa ideia e gosta dela com uma seriedade quase religiosa, mas sem mistério, uma disciplina que já não procura sentido, apenas eficiência, como se viver fosse um problema técnico e não uma experiência instável.

Eu conheço esse mundo por dentro e não o observo à distância, leio dados, leio estudos, leio aquilo que a epidemiologia sugere sobre risco, longevidade, metabolismo, inflamação, exercício e alimentação, e sei exactamente como esta linguagem funciona quando promete controlo e previsibilidade.

Mas também sei onde ela falha.

Quando se olha para os lugares onde as pessoas vivem mais tempo não se encontra esta limpeza obsessiva nem esta tentativa de domesticar cada variável da existência, encontra-se uma vida menos dividida, menos corrigida, pessoas que comem sem transformar isso em moral, que bebem sem transformar isso em ameaça, que vivem sem transformar cada gesto num dado a optimizar.

Não é ordem, é outra coisa mais difícil de aceitar, algo mais misturado e menos higiénico, e talvez seja precisamente isso que incomoda, porque contraria a ideia de que controlo é sinónimo de longevidade. Talvez não seja o controlo que prolonga a vida, mas a forma como a vida se deixa atravessar por outras vidas sem necessidade de autorização prévia.

Não estou fora disto, faço escolhas informadas pelo que se sabe sobre o funcionamento das coisas, embora por vezes tudo isto soe menos a ciência e mais a uma espécie de catecismo moderno com gráficos e convicções bem organizadas.

E depois há o ponto onde tudo falha.

Esse ponto aparece à mesa, não como cerimónia mas como suspensão de qualquer lógica de optimização, a conversa perde finalidade, o vinho deixa de ser um problema e passa a ser apenas uma outra forma de tempo, e de repente nada está a ser corrigido e ainda assim tudo parece mais real do que quando está.

E depois há aquilo que já não cabe no mundo social, um quarto em silêncio depois da conversa, não como episódio mas como oposição directa a tudo o que precisa de ser medido para existir, a luz baixa sobre as coisas sem lhes pedir explicação, o espaço entre dois corpos deixa de ser distância e passa a ser presença, e nada precisa de ser traduzido para ser real.

No mundo lá fora tudo é avaliação, desempenho e melhoria, aqui não há métrica que sobreviva ao simples facto de estar presente, e talvez seja isso o que mais incomoda nesta época, a impossibilidade de reduzir aquilo que mais importa sem o deformar.

Depois há o outro mundo, mais limpo, mais recente e mais disciplinado, um mundo onde a optimização aparece como promessa de salvação e onde cada variável corrigida parece aproximar a vida de um estado ideal, como se viver fosse uma equação à espera de solução perfeita.

Mas a vida não é isso, a vida quer atrito, quer falha, quer excesso, quer aquilo que não entra na métrica mas insiste em existir apesar disso.

E é por isso que me vejo sempre entre dois movimentos, um que tenta organizar tudo até ao limite da previsibilidade e outro que insiste em deixar a vida escapar por entre as mãos, sem que haja qualquer síntese possível entre os dois, apenas convivência instável entre duas formas de estar no mundo que nunca se resolvem uma na outra.

E talvez seja isso que estes lugares estranhos de longevidade nos mostram sem o dizer, não é o controlo que sustenta a vida, é a recusa da vida em ser reduzida a uma única ideia.

E isso não é limpo, não é asséptico, não é confortável, é mais próximo de um carrossel que nunca repete o mesmo movimento, de um caleidoscópio falhado que insiste em criar ordem a partir do erro, e de qualquer coisa em que sempre quisemos acreditar antes de perceber que a vida não cabe em versões higienizadas de si própria.

E talvez seja isso o mais difícil de aceitar, não é falta de explicação, é excesso de realidade.

E no fim sobra sempre a mesma pergunta, simples e sem defesa: o que fazemos com o tempo quando deixamos de o tentar controlar o suficiente para o sentir?

Porque no fim não é uma questão de quantos anos vivemos, é, talvez, uma questão mais incómoda, quantas vidas conseguimos viver dentro desses anos.