Opinião
Música | Cornelius - Montar a pop como se fosse Lego
Ouvir Cornelius é regressar a um lugar de infância mas com a sofisticação dos dias de hoje
Cornelius é Keigo Oyamada mas quase ninguém o conhece pelo nome de batismo. Cornelius é o alter ego do universo que construiu, desde os anos 90, sempre com ar de criança que nunca largou o brinquedo certo para desmontar e voltar a montar a pop, como quem espalha peças de Lego no chão até encontrar novas combinações que façam sentido. Cresceu em Tóquio rodeado de discos e em 1993 seguiu sozinho depois da aventura com os Flipper’s Guitar, uma das bandas que ajudaram a erguer o movimento nipónico shibuya-kei, onde o humor e o psicodelismo se misturavam com fórmulas de bossa nova e chanson française.
E em 1997 chega Fantasma e percebemos que estávamos perante um alquimista capaz de juntar num mesmo minuto ecos dos Beach Boys, guitarras desgarradas e eletrónica microscópica como se várias frequências do rádio dançassem no sinal que ouvimos e, como por magia, tudo fizesse sentido. Alguma crítica apressou-se a apelidá-lo de Beck japonês pela mesma habilidade de colar universos improváveis e muito em função do que Beck tinha mostrado em Odelay mas a verdade é que Cornelius nunca precisou desse espelho ocidental. Point e Sensuous continuaram a mostrar um artista obcecado com o detalhe e um escultor de sons que transforma o pingar de água em batida e o sopro do vento em melodia.
A sua irrequieta particularidade como compositor levou-o a cruzar-se com nomes maiores e de diferentes espectros, Yoko Ono pediu-lhe remisturas, Ryuichi Sakamoto convidou-o a partilhar o palco, Damon Albarn abriu-lhe a porta para trabalhar com os Gorillaz e os Avalanches deram-lhe lugar de destaque no seu cockpit de manipulação de samples.
Mas é ao vivo que a sua visão se revela inteira porque os concertos são experiências audiovisuais onde cada acorde gera uma projeção e cada gesto aciona uma resposta visual Tanto pode começar concertos com uma tela tapada e um jogo de sombras, como multiplicar-se em palco com figurantes vestidos como ele e sincronizados num jogo à “Onde Está Wally” ou prepara remisturas do alinhamento para quem quiser ouvir ao mesmo tempo. Cornelius encara o palco como encara as canções, um constante espaço de laboratório sempre à procura de novos caminhos e de colocar a nossa criança a brincar com a dele.
Ouvir Cornelius é regressar a um lugar de infância mas com a sofisticação dos dias de hoje, é aceitar que uma canção pode nascer de vozes cortadas, de barulhos da rua ou de sons digitais tratados com a minúcia de quem caminha entre a pop e a arte sonora, onde cada peça e cada camada encontra o seu lugar e cada melodia nos abre uma porta para um mundo novo.