Opinião

Letras | Rifqa, Mohammed El-Kurd

6 mar 2026 08:40

Rifqa não oferece consolo, mas claridade: mostra como a persistência pode ser uma forma de esperança, ainda que rugosa

Em Rifqa, Mohammed El-Kurd ergue a voz como quem abre uma ferida antiga para que finalmente seja vista. O poeta escreve desde o quotidiano sitiado de Sheikh Jarrah, mas a sua poesia recusa ser mera testemunha: transforma-se em denúncia, em memória viva e em futuro por reclamar. Cada poema é um gesto de resistência, uma tentativa de preservar aquilo que a violência e o apagamento procuram silenciar.

É também uma memória e um tributo à sua avó Rifqa (que em árabe significa amizade), sobrevivente da Nakba, o êxodo forçado do povo palestiniano, e onde é evocada como “símbolo de combate contra a opressão e o colonialismo”.

O livro vibra entre o íntimo e o político, como se ambos fossem inseparáveis – e, para El-Kurd, são-no. A infância interrompida, o medo familiar, o peso das casas ameaçadas, tudo convive com uma ironia afiada e uma força imagética que devolve humanidade a quem tantas vezes é reduzido a estatística. Rifqa não oferece consolo, mas claridade: mostra como a persistência pode ser uma forma de esperança, ainda que rugosa.

Lê-lo é confrontar-se com a urgência de quem escreve porque não pode calar. No final, ficamos com a sensação de ter escutado algo mais do que poesia: uma verdade que insiste em sobreviver, mesmo sob escombros.

O que escrevo é um quase. Escrevo uma tentativa.