Opinião
Letras | Quando o tamanho importa
Mal sabe o leitor o que o espera depois de abrir o livro e entrar neste curto mas profundo conto
Sendo a minha estatura classificada com aquilo a que, na moda, se designa por “petite”, aprazem-me em especial expressões como “a mulher quer-se pequenina como a sardinha” ou “nos pequenos frascos é que se guardam os melhores perfumes” e outras do género. Acredito que todas elas tenham sido criadas por pessoas pequenas para iludir a sua condição de “porta-chaves” (sim, ouvi esta em alusão à minha portátil medida).
Também os livros não se esquivam dos estigmas referentes à sua dimensão. Os calhamaços, tanta vez malfadados, aguardam pela oportunidade de serem levados pelas mãos dos corajosos que com eles querem viver uma longa relação leitor-livro. O tamanho médio, sem alcunha conhecida, talvez seja o mais popular entre as edições exibidas nos escaparates. Mas, em tempos em que os picos de atenção tendem a mingar, os livros pequenos e de bolso parecem vingar bem.
O Vestido de Noiva, da portuense Filipa Leal é um pequeno livro que integra a bonita colecção Contos Singulares, da Relógio D’Água. A capa revela: um vestido longo de uma suspeita cor preta, pendurado num cabide branco. Mal sabe o leitor o que o espera depois de abrir o livro e entrar neste curto mas profundo conto. Filipa Leal, para além de prosa e poesia, escreve argumentos para cinema. Neste texto está bem presente a sua hipnotizante sensibilidade cinematográfica.
Branca, a mulher pintora, olha-nos profundamente nos olhos, através das letras, e diz-nos “segue-me”, levando-nos a imergir no seu mundo interior. À beira de celebrar dez anos de casamento, descobre que o marido, David, lhe é infiel. Todo o mundo de Branca se obscurece. O seu vestido de casamento, metafórico protagonista do conto, toma uma nova cor: o preto. É Branca que o pinta para vesti-lo na festa, organizada pela sogra – elemento crucial no enredo de uma história que, aparentemente mundana, eleva com sarcasmo a necessidade de uma vingança que se serve fria e negra. Há muitos matizes entre o preto e o branco do conto de Filipa Leal. Arrumados ou desnorteados, cabem muito bem neste livro que não se mede pelas páginas.