Opinião
Letras | João Pancada Correia (2025), Viagens na arte. História informal das artes e dos ofícios OU o sublime encantamento do olhar
Amálgama doce, inesperada e surpreendente do muito que guardou dos lugares artísticos por onde vagabundeou, dentro ou fora de si mesmo
No passado dia 21 de março celebrou-se a entrada na Primavera, o Dia Mundial da Poesia, e foi apresentado pela primeira vez ao público (no edifício da Resinagem da Marinha Grande) o magnífico Viagens na arte. História informal das artes e dos ofícios, de João Pancada Correia (JPC), editado em finais de 2025 pela ed. Tinta da China.
Sobre o aspeto gráfico do livro: formato tipo A4, com uma capa cartonada a preto e com caracteres a branco, mate, o livro assemelhar-se-ia a uma sebenta. Mas a estética e o grafismo perfeccionistas, associados à editora, vieram suavizar a categoria de manual pesado (445 páginas) com os títulos, subtítulos e assinaturas do autor a cor (sanguínea?), e com página inteira de mudança de secção ou capítulo como um separador com a mesma cor, grafado em claro/escuro, num passeio inesperado repleto de fotografias, desenhos, esquemas, aguarelas, colagens, legendas poéticas, abstratas e concretas, recordações plásticas da pré e história passada da vida do autor e da sua família, numa amálgama doce, inesperada e surpreendente do muito que guardou dos lugares artísticos por onde vagabundeou, dentro ou fora de si mesmo. Por vezes, a legenda explica a origem da ‘fantasia’, e data-a, as iniciais JPC começam a fazer sentido e dão propriedade ao que descansa os olhos do leitor sério e o faz usufruir e alargar, mesclando as várias áreas e os espaços onde se pode viajar pela arte. Discreto, como o tamanho da letra, só na p. 442 se lê numa breve nota que “Todos os desenhos e fotografias, que constam nesta obra são da autoria de J. P. C. e foram realizados entre 1992 e 2017.”, assim como o agradecimento pelas do MoMA do cap. “Arte do século XX”.
Herdeiro da vocação do pai, mestre escultor Joaquim Correia, segue a missão do estudo e difusão do conhecimento sobre a história da arte, como diretor do Instituto de Artes e Ofícios, dedicando-se ao casamento de amor entre a arte e a arquitetura – honrando os 40 anos da sua instituição como um tesouro, inaugurado pelo capítulo “Ofício e Contemplação”. Pois se o mundo muda constantemente e nós com ele, partilhar um momento ou um olhar é sempre atrever-se a partir da nossa seleção e fazer dela o retrato do mundo. O saber livresco (e a Academia) é facilmente esquecido ou investido na torrente da experiência quotidiana (destaque-se a ausência de referências bibliográficas), de quem se escapa ao turismo porque não para de viajar na estesia do espaço e do tempo. Livro ou prova de vida? Partilha de um segredo que os outros ainda não conhecem – um dos prazeres infantis que (apenas) alguns adultos cultivam… A arte de admirar e nunca parar de aprender.
Sem vertigens mundanas, JPC vê claro, num esforço de saúde que não se desvia da lealdade às idiossincrasias específicas de cada objeto e de cada ofício. Como dizia Goethe: “cada objeto bem contemplado faz surgir um novo órgão dentro de nós”. A inteligência transforma os dados em conceitos e, quando parece existir um litígio com a expressividade própria daquilo que aparece, JPC inclina-se para a primazia da expressividade da existência. Os seus caminhos nunca são curtos: há um exercício incansável de tornar cada representação cada vez mais estética, mais sensível, um esforço de reconhecimento da luz / do brilho do mundo.
Contudo, talvez existam dois planos de verdade: um relacionado com o empírico e outro da vida íntima do espírito, de algum modo intemporal. E o difícil é ter acesso à nossa própria profundidade: lugar onde toda a linguagem vacila e claudica, enquanto toma consciência – a perceção dos limites confunde-se com a descoberta do sublime na arte.