Opinião
Letras | Joaninha voa, voa, que o teu pai foi para Lisboa
Cabeça ao | no | pelo vento, de Cristina Nobre. Que voo este por onde nos leva a autora e professora universitária
“A cabeça também é capaz de voar? / Corre, sonha e flutua / Sempre sempre traz o muito imaginar”.
Havia um sonho recorrente que tinha na infância. O meu vestido vermelho, de veludo, fazia parte dele. Eu vestia-o e exibia-o, vaidosa, até ser avistada por um touro corpulento. O animal fitava-me os olhos e começava a perseguir-me. E eu corria, o mais depressa que as pequenas pernas e o vestido travado me permitiam. O touro acelerava, eu ofegava. E, num acto mágico e exclusivo dos sonhos, começava a voar. O voo libertava-me do perigo e oferecia-me uma viagem maravilhosa sobre as casas, as árvores e o touro que continuava atarantado à minha procura. Depois acordava, mais leve.
Libertação das amarras do quotidiano é um dos significados apontados para o sonhar com voar. Que amarras haveria em tempos em que o voar fazia parte da vida? Voava-se com tudo. Voava-se de bicicleta, mesmo quando se esfolavam os joelhos. Voava-se no balancé feito com uma tábua e duas cordas penduradas na velha figueira. Pedia-se à joaninha que voasse: “joaninha voa, voa, que o teu pai foi para Lisboa, buscar caixas de sardinha para dar à joaninha”. Voava-se com os pintos, os xaréus, os louva-a-deus, os gafanhotos, as burrinhas de São João e os luze-cus (pirilampos).
Voava-se com o “muito imaginar” como nos versos de abertura deste texto extraídos do livro de poemas Cabeça ao | no | pelo vento, de Cristina Nobre. E que voo este por onde nos leva a autora e professora universitária. O livro, belamente ilustrado com as aguarelas de Rita & Tomás Saraiva, é uma ode aos voos simples da vida. Em versos curtos, Cristina desperta sensações e memórias que podem estar adormecidas em cada um. Um voo à infância, evocativo do puro, do belo, do minúsculo e do relevante, perfumado com um cheirinho a pinhal, a camarinhas e a mar.
Uma homenagem à natureza e aos “Animais nossos amigos”, lembrando Afonso Lopes Vieira, profundamente estudado pela autora. Voamos com andorinhas, corvos, gaviões, gaivotas, gralhas, melros… Até o Gato Maltês se afigura entre as palavras atentas aos ciclos naturais e à ação humana; o lavrar da terra, o rugir da trovoada, o arco-íris depois da chuvada, o sol quente que faz arregalar a lagartixa. Em tempos em que nos debruçamos, tantas vezes, sobre ecrãs e mundos virtuais, é bom lembrar como sabe bem andar com a cabeça no ar.