Opinião
Letras | De Ilha a Ilha – Duas décadas de trocas epistolares entre Vitorino Nemésio e Afonso Lopes Vieira
Eles próprios património cultural e literário, mesmo desfasados no tempo, tão bem se entenderam e culturalmente se assemelharam
Mais um pequeno/grande livro da autoria da Professora Cristina Nobre, grande conhecedora, estudiosa e cuidadora de toda a obra, vida e espaços do nosso poeta leiriense Afonso Lopes Vieira (ALV), recentemente editado pelo CEPAE (Centro do Património da Alta Estremadura) na editora Textiverso Unipessoal.
O livro divide-se em duas grandes partes: o Prefácio que, de forma clara e muito completa, prepara o leitor para o desenrolar de vinte anos de troca de correspondência entre dois grandes vultos da nossa Literatura; e uma segunda parte – as Cartas – em que a autora faz a transcrição ordenada de todas as cartas, sem nunca nos deixar, a nós leitores, sem uma explicação cabal de todas as situações menos explícitas e de todas as personalidades referidas por ambos os escritores, nas muitas e riquíssimas notas de rodapé que rodeiam o texto.
Estas cartas foram encontradas pela autora nas suas constantes pesquisas: as de Vitorino Nemésio (VN) no espólio do poeta leiriense guardado na Biblioteca Municipal de Leiria e as de ALV no espólio daquele guardado na Biblioteca Nacional. De referir o índice das Cartas cuidadosamente estruturado e datado pela autora.
O motivo que deu lugar a esta longa troca de correspondência foi o pedido do jovem VN (1901 – 1978) ao já consagrado ALV (1878 – 1946) que lhe prefaciasse o seu primeiro livro de contos Paço do Milhafre (1924). Inicia-se então uma amizade literária e pessoal, íntima até, que só poderia ter acontecido por se tratar de duas pessoas, dois escritores, dois poetas, dotadas de uma imensa civilidade intelectual e afetiva que lhes vai permitir trocar não só obras e escritos da autoria de ambos e muitos comentários literários, mas também confidências, acontecimentos mais ou menos agradáveis, desabafos das suas vidas pessoais, pedidos, convites, enfim…
Sensível e ciente do valor literário que adivinha na inicial obra de Nemésio, diz ALV “Não creio porém q. o meu Prefacio lhe trouxesse qualquer garantia de êxito maior, nem q. um temperamento como o seu careça de amparo prefaciador (…) Um autor do seu valor não deve precisar de prefacios. (…) O q. o seu coração requere de mim é simpatia e amizade – e essas oferto-as espontaneamente (…)”. Não obstante, envia-lhe ALV uma poética Carta-Prefácio altamente laudatória e afetuosa que enche o jovem escritor de orgulho e duradoira gratidão. Poderão os leitores do livro De Ilha a Ilha ler a Carta-Prefácio manuscrita fac-similada o que o enriquece bastante.
Mas o que enriquece o livro, para além do primoroso Prefácio e da metáfora que o título encerra: Ilha-Nemésio por ser ilhéu açoriano, Ilha-ALV por viver e escrever naquela sua Casa-Nau entre o Pinhal e o Mar, o que enriquece mesmo o livro são as Cartas – tesouros do património cultural, literário e linguístico – escritas por dois Homens, eles próprios património cultural e literário que, mesmo desfasados no tempo, tão bem se entenderam e culturalmente se assemelharam.