Opinião
Letras | Contar Uma História, John Berger e Susan Sontag (Edição de Benoît Bourreau)
O livro identifica o papel da narrativa, da imagem e da ficção (em filme ou fotografia) na cultura contemporânea
Da célebre entrevista televisiva onde Berger e Sontag debaterem ideias, e onde da diferença, se dirimiram posições com o respeito intelectual mútuo, nasceu esta edição de Benoît Bourreau. De uma amizade intensa já existente, do afecto e da verve intelectual, a entrevista seria uma das evidências públicas do seu diálogo.
Nesta edição, constrói-se com cartas raras, excertos telefónicos, faxes, uma cronologia da relação paradoxal e colaborativa, de duas das figuras mais icónicas do pensamento do fim do séc. XX e início de séc. XXI, recolhidas pelo investigador, e que desvela a cumplicidade literária secreta ou pouco conhecida do grande público.
As vozes de ambos ecoam ao longo das páginas deste livro, e reflectem preocupações intelectuais inerentes à contemporaneidade, à pessoa e à comunidade. A estética, o design, o pensamento que marcou o trabalho de ambos, são posições também artísticas onde debatem, contrapõem, galgam soluções, e sempre num ambiente de admiração mútua e troca de ideias salutares.
Em suma, o livro identifica o papel da narrativa, da imagem e da ficção (em filme ou fotografia) na cultura contemporânea, revelando o paradoxo entre as visões de ambos: Berger enraizado na experiência e na memória colectiva, e Sontag alicerçada na imaginação e na liberdade da ficção.
Com a partida de Sontag, Berger numa carta enviada a uma amiga de ambos, escreve o seguinte poema:
Prata-Viva
Susan Sontag – prata viva dardejando, entre o passado
e o futuro para lançar luz sobre o tão, de outro modo, sombrio
presente coma tua consciência que progredia quase à
velocidade da luz.
Lembro-me de jogar pingue-pongue contigo, dos teus
serviços rápidos e do teu sorriso, que era sempre uma surpresa […]
Jogo e partida para ti, Prata-Viva